quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nunca senti tanto calor em pleno dezembro... Se bem que de um tempo para cá, dezembro vem se modificando... o Natal, tão representativo prá mim, vem se transformando numa festa por vezes tão hipócrita! Essa obrigação de presentear me parece tão desigual! De mesa farta em contraponto a mesa em falta... Nessa época eu gostava mesmo era dos Ternos de Reis chegando na porta das casas, em festa. As portas se abriam e junto a festa dos reiseiros, o dono da casa providenciava o que tinha a mão para dar de comer e de beber ao grupo. Depois eles foram ficando a cada dia mais marginalizados. Reizeiro para alguns é sinônimo de gente embriagada. A falta de incentivo aos grupos junto com essa visão deturpada, porque por detrás dos Santos Reis tem um cunho religioso, foi empurrando-os para as periferias, cada vez mais. As Lapinhas também foram virando poeira do tempo. A última que vi foi no ano passado, na casa de Dona Nazinha, ali no cais. Ontem passei por lá e vi a casa toda fechada, sem qualquer sinal dum tempo que gosto de recordar...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estávamos no finalzinho da década de oitenta e de volta a Ibotirama, ladeados pelos sonhos de meus pais, de uma nova vida, pós formação superior, nos braços da terra natal... Naquela época a adolescência batia a minha porta. Dentre os novos amigos desse novo mundo, "o goiano", apesar de um pouco mais velho, virou presença constante em nossa casa. De olhos verdes, cabelos caindo sobre a testa e traços afiladíssimos, além de um verdadeiro galã, era de uma gentileza extrema. Tão sensível, que por vezes tornava-se incompreendido. Tocava um violão meio desafinado, cantava meio desafinado, mas era dono de composições tão puras, que esse desafinar tinha um certo encantamento. Me trazia uma serenidade sem tamanho. Dono de uma caligrafia linda, me deixava absolutamente surpresa e lisonjeada, quando elogiava a minha letra. Depois de um certo tempo, foi cursar Técnico Agrícola em Catu. Ainda assim, me trazia notícias nas férias. Lembro-me de uma moça chamada "Linda Rosa" por quem se apaixonara e que, por conta dela, me fazia ficar imóvel por horas, ouvindo suas queixas sobre a interferência da família no namoro. Depois a vida nos lançou em direções opostas, mas não o relegou ao esquecimento. Volta e meia me perguntava por onde andaria José Carlos Vilaverde. Ontem soube que faleceu há pouco tempo e que estava logo ali no Morpará. Soube também que continuou compondo e cantando e que a vida lhe trouxe muitas amarguras. Mas que deixou composições maravilhosas para os que estavam próximos. Não constituiu família e morreu sozinho, sendo encontrado apenas três dias depois. Tenho quase certeza, que o peso desse mundo deve ter ficado insuportável para os seus ombros tão leves...
Abaixo, um poeminha meu, porque foi inquieto como eu, apenas sabia disfarçar melhor...

Dentro de mim
um poço reina
profundo...
As agruras que lanço
sem dó
as inquietudes
meu olhar sobre o mundo.
Tem dias que lanço a corda
e sem medo desço.
Afogo minhas angústias
fujo dos meus desejos.
Tem dias que cerro a tampa
e na superfície renasço.
Poço de mim
fuga com as quais
sobrevivo nos percalços.

(Tâmara Rossene)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Essa chuva caindo assim fininha, me parecem lágrimas, por D. Angélica que se foi ontem...Pra minha mãe, Dinda Angélica. Aliás, para muitos da família que se acostumaram a chamá-la dessa forma...Há mais de setenta anos Santo Antonio se alegrava com suas novenas, trezenas...Desde muito menina vovó Anália me conduzia nas férias, até a rua Primeiro de Janeiro, a me deliciar com com seus quitutes, seus cantos e suas rezas. Agora talvez, tenha ido fazer coro com minha avó... Apesar de seus noventa e poucos anos, ainda era moça, pois não se deu aos desfrutes mundanos. Então, além de rezadeira, também era anjo... E tinha uma memória que era um espetáculo! Deixou um "q" de saudade e também de perda em nossas tradições que já andam tão esquecidas... Mas Santo Antonio certamente a estará esperando para tomá-la na mãos...

domingo, 20 de novembro de 2011


Na última sexta, estive observando a caatinga em seu movimento de renascer, a cada ano... A vegetação, que durante a maior parte do tempo parece uma floresta morta, com seus gravetos frágeis e nus, se transformou em mata exuberante! Eu sou encantada com essa capacidade. Se me perguntassem hoje, qual habilidade eu gostaria de ter, a minha resposta seria: eu queria ser caatinga... Abaixo, posto um poema que deveria estar aqui no aniversário de Paloma, no finalzinho de outubro. Pela capacidade que ela tem de transformar as fragilidades em conquistas. Acima, uma foto tirada por Mariana, da paisagem transformada...

Olhos de Paloma

Profundos e advinhos.

Tão Negros

Que me perco e me intimido.

Ousei mentir pra você

Não consegui fixar-me em teus olhos.

Estou nua

Exposta a esses faróis inquisidores.

Olhos de Capitu

A esconder verdades, mentiras

Certo, errado,

Nesse poço de dimensões profundas

E intenso brilho.

Cantei pra conter o teu choro

Quando você nasceu

Nunca me esquecerei

Dessas duas faíscas luminosas

Que me olharam.

Teu olhar é lindo

É intrigante!

Se eu tivesse olhos assim,

Ganharia o mundo

E o colocaria inteiro a meus pés

Totalmente hipnotizado.

(Tâmara Rossene)

domingo, 30 de outubro de 2011


Certa vez uma tia materna estava morando em São Paulo. Eu tinha por volta de quatro, cinco anos. Menina da beira do Velho Chico, sonhava ganhar uma daquelas bonecas que tinham quase o nosso tamanho. Ingenuamente mandava recados a Papai Noel, mas parece que ele sempre tinha outro planos prá mim. Voltando a tia de São Paulo, ela era aquela época, a minha esperança. Soubemos que ela chegaria no Natal e que viria com muitos embrulhos coloridos, para mostrar a família que prosperara. Não sei como começaram a me encher de sonhos e expectativas. Mas a tal boneca parecia cada dia mais próxima, da data que ela anunciara chegar, através de carta. Quando a vi, expressei uma saudade maior do que sentira, sentindo o coração bater forte, ao imaginar receber o presente que ocupava minhas noites e dias, em devaneios. Quando chegou o momento da entrega da "lembranças", como ela mesma intitulara, recebi um embrulho imenso... Olhei de soslaio para outra tia de pouca idade como eu e para minha irmã, vitoriosa. Esperei que ela abrissem os embrulhos primeiros, um jogo de mantimentos num, um jogo de pratinhos noutro. Pensei que eu sairia daquela sala com o melhor presente. Começo a desenrolar calmamente o embrulho sem tamanho, perfeito para abrigar meu objeto de desejo. Não acredito no que vejo: um jogo de panelinhas e um de pratinhos coloridos. Olho decepcionada e digo um obrigada quase inaudível. Mas contei essa história para dizer que durante o tempo em que venho existindo, já ganhei muitas vezes panelinhas e pratinhos, em detrimento de sonhos maiores, se é que me entendem. E todas as vezes que crio maiores expectativas, revivo o trauma infantil e fico esperando o pacote se desenrolar... Portanto, como comecei escrevendo pensando em meus coleguinhas de labuta, não fiquem com esses olhos de quem já imagina as pequeninas panelas se mostrarem sob o papel celofane...rsrs... afinal, há sempre um ganho e sempre se pode fazer bom uso do que se ganha...rsrs...e bom que temos uns aos outros para amargar a decepção do presente...

P.S. À vocês, Irlan e Márcia, pelo convívio de todos os dias... Aproveitei e postei uma foto minha (antiga) com meu irmão caçula, porque dentre nós sempre foi o mais sortudo com os presentes...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tanto tempo longe daqui...a correria é sempre a culpada, como se na verdade não fosse eu mesma a me deixar aprisionar... Tanto pensei em escrever nesse espaço de tempo. A cada dia, uma nova desculpa, até que as idéias acabam perdendo a cor e a vivacidade e um novo dia aparece, com suas repetições. Nesse tempo, o prenúncio de chuva me trouxe um sabor de novo. Afinal, as folhas voltaram a nascer nos galhos tortos e secos desse sertão. Minhas crias reclamaram atenção. Estive em Salvador e descobri que estamos cada vez mais distantes. Cada vez mais incompatíveis. Aliás, muitas coisas a minha volta tem se mostrado incompatíveis. E aos poucos, ando arejando os meus passos... Num dia desses, escrevi num pedaço de papel (tanto tempo sem utilizar o papel), esse texto que reproduzo abaixo. Espero inaugurar com ele, uma frequência mais constante a esse espaço...

Cá estou eu de novo, fincando um pé no presente e outro no passado, sempre indo e vindo, nesses alinhavos que me acometem os dias... Lembrei-me agora que andava apenas de calcinha até os 07, 08 anos, no meio da rua, quando morávamos na Federação, em Salvador. Algumas meninas da minha idade, zombavam das minhas "vestes". Mas era tão natural e eu me sentia tão segura apenas com a companhia dos desenhinhos infantis e dos babadinhos que me enfeitavam a cintura prá baixo, que pouco me importava com os comentários de minhas companheiras, abotoadas e acinturadas. Hoje se vejo uma menina com a mesma idade utilizando os mesmos trajes que me acompanhavam aquela época, já me preocupo com o que a ronda. Um novo mundo tão liberado esse que conquistamos, que coloca em risco e profana até o sagrado... Quanto sangue derramamos por um novo mundo, mas a maioria dos que aqui estão, nunca entenderão porque lutaram os que se foram... Penso nisso em instantes, tudo porque uma menininha passa saltitante em frente ao carro apenas de calcinha amarela. Lembro-me então dessa liberdade experimentada por mim. Vou divagando até me dar conta de que acabo de chegar ao Pólo da Universidade Aberta, em Ibotiraminha. Me deparo com o corredor e algumas salas repletas. Alunos discutindo trabalhos, dialogando, refletindo... É claro que queríamos a proximidade do mundo acadêmico, o calor do que se faz presente através do físico. Mas não há como negar o que existe. Nem há também como nos acomodar com o que há. Achei linda essa visão de pessoas de várias idades, ainda que por vias virtuais, estarem ali naquele momento, correndo pelo conhecimento, nessa Ibotirama que as vezes, me trás tantas interrogações... Alguém fala de Chauí ao meu lado, um outro resolve uma sentença matemática, outros tecem comentários que versam sobre ética, até que alguém me chama pelo nome. A menininha volta a correr dentro de mim, em trajes pormenores. Será um indício de que posso voltar a ter esperança no novo mundo? Ou será que a chuva, miragem de todos os dias neste deserto por onde ando, anda amolecendo esse meu ser tão árido? de toda sorte, um pouco de água a quem tem sede, trás sempre uma sensação de saciedade imediata e um desejo por mais...
Abaixo, uma poesia, a Chuva, por meu pai...

Bendita chuva

De águas cristalinas

Redenção divina

Da natureza bela

Esperança do lavrador sofrido

Vida plena dos seres que respiram

Em tuas gotas benfazejas

Mantém a vida com vigor,

Alegria

E abundância

Formando rios permanentes

Ou temporários,

Deixa em tudo fartura

E muita crença

Chuva de prata

Seja para nós

Eterna!...

(Orlando Ribeiro de Andrade)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

De volta as lendas...





Talvez o ano fosse 1975, ou 76, não sei bem ao certo... Meu avô materno tinha uma pequena fazenda (segundo ele era uma fazenda) chamada Ponta da Serra, que ficava na estrada do Boqueirão. Até hoje a casa construída por ele resiste em frente a estrada. Os mesmos degraus que pareciam imensos para mim naquela época, agora já diminutos. As portas e janelas permanecem cerradas, como se alguém os abrisse, de repente, o mundo voltaria a ser como era antes... Iamos para lá de jipe, nos finais de semana. Engraçado como parece que quando me lembro do jipe, automaticamente me vem o brilho nos olhos do meu avô, ao volante... Da casa avistava-se uma serra, que a noite era como uma sombra solta no espaço. Em algumas noites, uma grande bola de fogo brilhava no céu... Subia e descia provocando um clarão. Diziam que era ouro enterrado. Encantado. Que era preciso ser muito corajoso para ir até onde a bola circulava, procurando em seu raio o tal ouro escondido e cavar a sua procura. Mas que aquele que ousasse procurá-lo, teria que enfrentar uma série de assombrações e fantasmas. Assim me contavam, enquanto os meus olhos atentos cresciam a luz de candeeiros. A sombra da noite parecia aumentar ainda mais o meu medo. Para mim, a bola brilhava mais do que a lua cheia e povoava os meus sonhos. Certa vez vi homens atirando em sua direção. E sonhei com bravos cavaleiros se atirando sob objetos reluzentes que caíam do céu... Não sei se a minha imaginação aumentava os fatos. Ou se o objeto circular era da magnitude que me lembro. Mas nunca soube de ninguém que enriquecera a custa dessa proeza. Ou nunca existiu homem de coragem suficiente. Ou existem caminhos menos árduos ou mais fáceis para somar riquezas. Ou não olhamos mais para o céu a cata de mistérios. De qualquer forma, é necessário voltar sempre a esse tempo e registrar. Enquanto ainda me resta essa capacidade de olhar para o céu de outrora...

P.S. Na foto, João Marcelo, cavando o chão, quem sabe um homem corajoso, a procura de um tesouro perdido....rsr...

domingo, 18 de setembro de 2011




Domingo na casa de tio Bé... Tanto tempo sem me reunir com a família embrião, que havia me esquecido o quanto faz bem, de vez em quando, olhar prás origens... O churrasco e a cervejinha fizeram pano de fundo prás histórias que já ouvi incontáveis vezes... em muitas delas, eu era a personagem principal. Historinhas da minha infância que espero ainda retratar por aqui...O fundo musical a lá Mera, com resgates do tempo das cavernas, foi como se me embalasse. Tantas músicas que me trouxeram a face de meu pai, em sua eterna boemia...Olhando Nalvinha lavando pratos sorridente, minha mãe e Tia Dó cantando, Marcelo desestressado, meus sobrinhos e filhos em festa, foi como estar ao pé do fogão de lenha da Velha Anália, apesar disso ter sido noutro tempo, noutro quintal. Tio Bé ali a minha frente, tão vivo em minhas lembranças... Lindo quando andava com as duas filhas de bicicleta pela cidade, quando estas tinhas três e cinco anos. July no quadro da bicicleta e Tacy na garupa. Uma branca e a outra morena. Uma Nalva e a outra Mera. Ele dizia que uma havia sido feita de dia e a outra de noite...rsrs... Pena não ter registrado em fotografia aquelas imagens da bicicleta. Lembro-me dele em Barreiras, Salvador, Ibotirama... Sempre a minha volta. Rindo ou provocando meu geniozinho de menina mimada e calunduzeira. Um pedaço grande de minha existência em suas piadas infindas... Me trouxe a cabeça esse trechinho que escrevi num dia distante, tentando traduzir a palavra família...
Ai, como ouço queixumes de ti!
Uns e outros requisitando atenções e mimos.
Mas quem dera houvesse harmonia em tudo o que há neste mundo!
E em dias assim
sinto-me parte e grata
por ter um laço que me prende
nessa imensidão...
Acima, uma foto de parte da família materna, em 2008, reunida na casa de Orla... E outra da formatura de Taci, entre Vovô e Bé, dormindo no final da festa...rsrs...

Esses pensadores andam tomando meus pensamentos...rsrs... Um poeminha a toa, que andei rabiscando durante uma das aulas de Sociologia...


Que me perdoe Durkeim
mas ainda que me pese
essa degradada natureza humana
é fruto do que íntimo se cria.
E ainda que se fundamentem teorias
o mal externo
vem do que há por dentro.
Te trocarei por Goethe e Weber
negando teu positivismo
nos caminhos subjetivos
que não cabem pragmáticas.
O externo adentra em mim
e eu me derramo sobre ele
natureza fática.
Quisera eu que teu funcionalismo
fosse a clareza desse meu espírito
mas o homem é torpe e turvo
e esse caos cá fora
é produto que se concebe
e finca raízes
no fundo...

(Tâmara Rossene)
Houve um tempo na minha infância que ainda ouvia alguns dizerem que "comunista comia criancinha"... O pior é que alguns falavam isso não por ignorância, mas por conveniência política, puro joguete para "salvar" o sistema a sua volta, à custa da ignorância alheia. O texto abaixo me foi enviado por e-mail por um filósofo (de formação mesmo, rsrs), que divide os dias de labuta comigo. Cavaleiro, íntegro e polido. Por suas contribuições diárias nas minhas reflexões, posto aqui para homenageá-lo...

Rossene, ontem, no momento em que eu lhe chamava de comunista e marxista, quando saíamos do “trampo”, lembrei-me do meu avô (como sempre lembro ao tratar dos aspectos dos ideais comunistas). Ele tinha um verdadeiro pavor do regime comunista por ele imaginado, com a contribuição do rádio da sua época - assim creio -, mantido pelo governo.
Dizia ele: “os comunistas não podem entrar no governo, porque vão invadir as casas dos outros e as terras dos outros e dividir. Isto é justo, o trabalho alheio ser tomado assim?”
Não me recordo exatamente a época, mas me lembro que era bem criança e obviamente não entendia o que ouvia, contudo, conceitos tidos como comunistas permearam a minha mente como algo ruim, embora não soubesse exatamente do que se tratava, até o contato com textos que abordavam o assunto.
Nascido em 1938, não alfabetizado e sempre residindo no sertão, creio que ele estava alheio à tentativa de golpe em ocorrida 1935 (com influência da denominada Internacional Comunista, braço do regime soviético na época); do boato do chamado “Plano Cohen"), em 1937, no qual surgiu um documento descrevendo como seria uma insurreição comunista (com massacres, saques, depredações, invasão e desrespeito ao lares, incêndios à igrejas, etc.); e também das atrocidades cometidas por Stálin na extinta União Soviética. De igual forma à repressão praticada contra o Partido Comunista Brasileiro, sobretudo no período de 30 a 47 - quando culminou com a cassação do seu registro pelo Supremo Tribunal Federal (o que ele comemoraria, apesar de não entender bem as “macro-implicações” daquele ato) -, assim como em grande parte da década de 60.
Mas, além do rádio, ele também tinha outro disseminador anticomunista: a Igreja Católica, pois ele é católico (antes de ser cadomblecista). Esta, como é sabido, sempre se opôs a qualquer implantação de um governo comunista ou socialista, chegando a expedir um documento, em 1949, excomungando automaticamente quem apoiasse ideias comunistas ou socialistas, afirmando que estes regimes e suas ideias eram contrários aos preceitos cristãos, pois, dentre outras coisas, “violava a ordem, negava direitos, dignidade e liberdade”. Muitos outros discursos foram proferidos em períodos anteriores e posteriores a este, e disseminados pelo mundo, não é demais crer que tenham chegado algo a ele, não sei exatamente por qual meio. Mais, porque na sua juventude, em momentos anteriores ao período militar esta mesma igreja – dentre outros, através dos Bispos Dom Geraldo Sigaud e Dom Castro Mayer -, patrocinou fortes movimentos anticomunistas, exacerbando os seus aspectos ruins, mesmo crendo que o aumento da simpatia comunista se devia a males advindos do regime econômico capitalista.
Enfim, foi bem interiorizada na mente dele o que significava o comunismo, e inevitavelmente era transferido aos que viviam a seu redor. Eu não sabia o que era, mas “sabia” que era ruim. E, sim, até hoje ele mantem o mesmo medo e não há quem o faça entender de outra forma.
Chega, Rossene! O seu blog está me afetando. Você é uma saudosista (sim, uma saudosista) e acaba me remetendo às minhas relações e contextos passados.

Att., Irlan

domingo, 4 de setembro de 2011

Hoje estive na igreja do bairro São Francisco prá dar um testemunho de uma graça que me foi concedida. Mas esses caminhos que o criador usa para chegar até a mim, ou para que eu chegue até a ele, será tema de outro dia. Fiquei observando a Igreja lotada e pensando que algumas igrejas me tocam pela mistura de classes. Pobres e ricos, afortunados e desafortunados em riquezas materiais, no mesmo espaço. Cantando juntos, desejando um mundo melhor, num clima de irmandade. Fiquei até um pouco mais crédula. Afinal, junção de classes nos últimos tempos, só tenho visto nas novelinhas globais...rsrs... Uma senhora ao meu lado, tão velhinha, que a coluna já não a deixava em posição ereta, junto com tantas outras, pareciam o retrato da devoção. Quando a minha filha lhe estendeu a mão para desejar a paz de Cristo, ela lhe deu um abraço imenso. Talvez estivesse sozinha, talvez precisando de um abraço, ou talvez quisesse nos salvar, ou nos acolher, com aquele gesto. Também fiquei imaginando o quão difícil deva ser conduzir uma igreja, já que padres e pastores são de carne e osso como nós. Será que se permitem duvidar, descrer? Quantas contradições devem cercá-los nesse trajeto... Bem, abaixo posto algo que escrevi há anos e que casa muito bem com o relato acima.

D E U S
Hoje eu caí.
Você me levantou
e me soprou a poeira dos olhos.
Estou triste
Não posso dividir esse presente.
Encontrei ao meu redor
uma infinidade de cegos.
(Tâmara Rossene)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Cotidiano


Cenas que me rodeiam todos os dias.
Não sinto.
Não percebo.
Não pouso o meu olhar maquinal.
Mas ao cair da noite.
Quando me aquieto.
Sinto falta de calma
prá observar que a felicidade
está em pedacinhos do que vivo
todos os dias.
Nos recantos da casa.
Nos sabores que provo.
Nas pessoas que estão a me rodear.
Naquilo que penso cotidiano
mas que não ficarão para sempre...

(Tâmara Rossene)

(Mari e minha mãe lavando roupa em Vitória da Conquista, clicadas por mim, há uns quatro anos)

O mundo termina logo ali...
ao final da estrada onde minha avó esperava
sem luz, sem tv, sem internet
sem saber de homicídios, atentados
e notícias de um cenário que eu nem imaginava
que um dia existiria.
As novidades chegavam por cartas
e pela telefonista
do outro lado da linha.
Agora são estradas que se cruzam virtuais
levando más notícias nos quatro cantos.
Em lugares onde cartas já não chegam
e ninguém me espera...
Logo eu que naquela época era apenas uma
e que hoje sou tantas
numa polivalência que me mantém sobrevivendo
mas que me relega a solidão...

(Tâmara Rossene)

P.S. A foto tem uns quatro anos. Mariana e Amanda Carinhanha, clicadas por mim...

domingo, 28 de agosto de 2011


No primeiro Festival de Poesia de Ibotirama, eu era uma criança ainda. Declamei a poesia abaixo, chamada Identificação, de autoria de meu pai. Fui escolhida melhor intérprete de aceitação popular e a poesia, para nós, "injustamente", ficou com o sétimo lugar (até hoje, as premiações trazem controvérsias). Me lembro que fiquei encantada com os aplausos...Ganhei uma medalha e um livro que guardo até hoje. Acima, prá fazer par com a poesia, já que somos parte da história do poeta que a escreveu, uma foto da primeira comunhão de minha irmã Orlamara. Ricardo, Orla e eu, na igreja das Dorotéias, em Salvador.

Identificação

Sou braços abertos

Estendidos longamente

Buscando abraçar

Corpos esguios

Tentativa nobre

De apoio aos fracos

Vã esperança

De espalhar a paz.

Sou campo aberto

De amor poético

Pureza frágil

Luz esmaecida

Malhas coloridas

De prisão tão doce

Transformada amargura

Ao gosto de pecado

Sou beija-flor

Na busca incessante

Do néctar precioso

Da provocante flor...

Que macula a rosa

Sem prazer pagão

Mas, para acender a chama

De crença ao amor!...

Sou chama acessa

Luz de pirilampo

Misteriosa, sem explicação

Dúvida pálida

Ao correr do tempo

Colorido falso da ilusão

Sou simples, puro

Meiga bondade

Tristeza da solidão

Viajante sem destino

Fuga da decepção

Sou verdade e mentira

Miragem, realidade

Virtude, perdição

Passadas largas em caminhos estreito

Ternura, carinho, força

Leveza de sedução

Sou loucura e sensatez

Ventura, fatalidade

Luxuria, pudor, castidade

Traços de dor, alegria

Coragem, medo, ousadia

Sussurro de doces segredos...

Sou natureza palpitante

Selvagem fogoso sangue

Sou arvore frutificante

Melodia, perfume, canção

Poema, vinho, sorriso

Bonança e tempestade,

Sou luz e realidade!

(Orlando Ribeiro de Andrade)

sábado, 27 de agosto de 2011



Outro dia uma moça de São Paulo que estava por essas bandas, me confessou que havia tirado várias fotos do céu. Como a olhei interrogativamente, ela me revelou que nos seus 22 anos, nunca havia saído de São Paulo. Só conhecia um céu tão azul e com nuvens tão brancas, de fotos e imagens da tv e do cinema. Hoje me lembrei dessa história e de que o nosso céu é quase sempre assim... Mas só conseguimos falar do sol escaldante de cada dia. Há tanto por aqui que não há em outros lugares... Mas só a distância e a falta trazem a tona... É claro que nem tudo está perfeito. Mas a reclamação é sempre mais constante do que o reconhecimento. Outro dia estava observando o rio e me lembrei de uma época em que faltava água e corríamos para ele com latas e baldes. Parece que éramos tão mais felizes naquele tempo... Mas o tempo também é distância e consequentemente trás a sensação de falta. Nem sei porque comecei a postar isso. Se por saudosimo ou se por medo de ceder ao clamor das reclamações e perder o espírito contemplativo que sempre me acompanhou. Acho que reclamação em excesso, sem deixar de olhar o próprio umbigo e sem sair do lugar, endurece e por vezes, começa a virar mais maldade do que desejo de que a realidade mude! Indignar-se é absolutamente necessário, mas atitude e bom senso também. E depois, se somos incapazes de enxergar que o pano de fundo desse sol abrasador é um céu magnificamente azul, será que somos capazes de enxergar a exatidão dos fatos?

P.S. Acima, uma foto de meninas na beira do Velho Chico. Apesar do trabalho que exercem, me parecem com expressões felizes...Foto do mapeamento de cultura, por Orlamara Andrade

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sem perceber vamos repetindo velhos modelos, como se fossem novos... Noutro dia me perguntaram se Taylor e Fayol ainda tinham espaço nesse nosso mundinho tecnológico. Tanto conhecimento em voga na era da informação, tanto disseminar e propagar idéias, mas eles estão mais arraigados do que nunca, impregnados na lógica do sistema que nos domina. Penso que a sistemática proposta nos primórdios da Administração Científica, evoluiu sim. Se antes aplicava-se apenas a produção de bens em escala, agora aplica-se também a manipulação das idéias. São músicas, livros e idéias produzidas em séries e degustadas de igual forma, também maquinalmente. Uma coisa é certa, a mais valia coloca Marx no topo dos pensadores inquestionáveis, depois de anos como indesejável. Tem horas que a verdade não pode ser oculta e vira aliada até mesmo nas estratagemas dos que querem negar que ela exista. Será ele, o capital, sempre o responsável pelas guinadas de 360 graus? Gira, gira, gira e cá estamos no mesmo lugar de sempre. O progresso científico sobreveio, é verdade. A produção e a riqueza nacional aumentaram juntamente com as necessidades e os desejos. Fome do básico e do que enche os olhos. Desejo de pertencimento ao mercado dos mais seletos. No passado, era vontade de ouro e prata. No presente, carro, celular, gracejos tecnológicos. Demanda por um poder que chega na capacidade de suprir a vontade ávida do consumir. Será que encheria os nossos olhos mudar a lógica do sistema, socializando os meios de produção e dividindo a riqueza por igual? Claro que não...mesmo com a desproporcionalidade da repartição do bolo, quem tem ao menos uma pequena fatia, não ia querer correr o risco de estar em pé de igualdade com os que comem das migalhas que caem da sua mesa, queriam mesmo era a cereja do bolo... Mas são afetos de pequeninas caridades. Abrem a bolsa para conceder moedinhas as mãos que se estendem, ligam para o criança esperança e comentam as injustiças e mazelas sociais, como se assim pudessem ajudar a mudar o mundo! E ainda acreditam que a violência, a marginalidade e o caos social é sempre culpa de terceiros. Desculpem, mas ando meio incrédula de que ainda tenhamos salvação...

Abaixo, um poeminha escrito depois de passar algumas horas no Rio Vermelho, um bairro boêmio de Salvador, apreciando a movimentação a minha volta...Espero que gostem! Saudades de postar aqui com mais frequência, mas enquanto o tempo é escasso, vou me virando enquanto posso...


AMBULANTES

Bebo e rio.

Ouço vozes ao meu redor.

Tilintar de copos.

Rostos.

A música.

A noite.

O brilho da madrugada.

Entre as mesas circulam

vendedores de rosas

cartões

amendoim.

Olha o queijo coalho!

Eles estão em toda parte!

Meninos descalços

que perderam a hora do sono e da infância.

Senhoras

que esqueceram o tempo de descansar!

Que me importa!

Brindo a noite.

Trôpega

abraço o meu amor.

E nem sequer um aplauso

para os ambulantes

que sustentam as cortinas!

(Tâmara Rossene)


domingo, 14 de agosto de 2011

De volta a terra...


Muito cedo rompi cordões.

Velas distantes do Velho Chico me jogaram às tormentas.

Desaprendi a amar pessoas e vilarejos que deixei prá trás.

Incompleta voltei!

Estava em meu caminho refazer laços desfeitos.

Ah, meu umbigo deitado debaixo do limoeiro, voltei!

Ah, minha Anália, quanto tempo perdi!

Meu labirinto de recordações.

Já não reconheço as feições que ora se mostram a luz de candeeiros.

Tardes de calor intenso queimando em pedaços que agora querem juntar-se.

Ah, Babilônia que me atormentava dias e noites.

Ponte que se quebra dentro de mim.

Ó mãe que me atou por um fio quando me perdi pelo mundo e onde quer que eu fosse mantinha a minha cabeça sempre voltada prá trás.

Ai, como órfã estive, longe do meu lugar!

Eu posso me atirar pelo mundo em qualquer direção.

Eu posso buscar outros destinos.

Outras terras.

Algo sempre me trará de volta.

Entre caminhos e descaminhos.

É impossível fugir a bússola que aponta continuamente nessa mesma direção....

(Tâmara Rossene)

P.S. Na foto, enchente de 1992. Aí nesse lugar onde estou sentada, hoje é o Palco da Praça de Eventos.

domingo, 7 de agosto de 2011

O show de calouros ontem na Praça de Eventos, me deu a impressão de que voltamos a crescer os nossos olhos para a cultura! Minhas reverências aos participantes, que escolheram um repertório inquestionável. Do primeiro ao quinto lugar, Nilton César, com Sangrando, de Gonzaguinha; Luana, com Sonho de um Palhaço, de Antonio Marcos; Adriano Casa Nova, com Papel Machê; Paulo Henrique, com Alma Nua, de Vander Lee e o quinto lugar, com Vapor Barato. A Praça, ah....voltou a ter platéia. Deus ouviu as nossas preces! e o Velho Chico, ali, bem ao lado do palco, foi testemunha de que a revitalização da cultura é um sonho possível!
Nosso cachorro de 09 anos partiu hoje... Quando chegou, Mariana tinha pouco mais de 05 anos. Durante todo esse tempo, foi um membro querido de nossa família. Inquieto, irritante e hiperativo como se tivesse o nosso sangue... Ás vezes me tirava do sério, mas quando baixava as orelhonas e os olhos depois de levar uma bronca, era um convite a fazer carinho... Se existir um céu dos bichos, acho que vai para lá... Abaixo, um poeminha que havia feito prá ele há algum tempo e acima, uma foto nossa, quando eu estava grávida de João Marcelo...

Uma relação controversa.
Não o mimo
ele não pula em festa quando chego
mas há dias em que apenas nos olhamos
e uma relação de amor se estabelece entre nós...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011


Infelizmente não pude ir ao lançamento do filme-documentário "Do Buriti a Pintada", em Brotas de Macaúbas. Mas hoje praticamente atropelei um compromisso, prá dirigir-me ansiosa para praça de Eventos, ávida por assisti-lo. Meu Deus, são tantos os que estão em grandes centros, próximos as fontes de captação
de recursos, dos recursos propriamente ditos; os que bebem da fonte da informação; os que tem acesso fácil a educação e cultura. Quantos desses se comprometem em nos livrar da amnésia que nos acomete quando se trata do nosso passado historico? Quantos dividem o conhecimento acumulado? Reizinho bebeu da fonte da história... Mas foi menino nascido e criado nesse sertão. Cruzou os limites que lhe margeavam. E enveredou-se no labirinto negro da ditadura, tomando como fio de Ariadne o desejo incontido e incontrolável de desvendar...O filme emociona pelos personagens de carne e osso que relatam os fatos vividos. Pelos paralelos traçados. Pelo resgate de fatos do cenário nacional que vieram bater as nossas portas. A trilha sonora é um capítulo a parte, principalmente nas vozes genuinamente ribeirinhas... Percebe-se na concepção da obra, que é quase impossível dissociar o historiador Renaildo, do artista Reizinho. Ambos parecem ter caminhado lado a lado, para que o documentário tivesse valor histórico, mas também uma dose de poesia e de musicalidade... Os agradecimentos com tantos nomes envolvidos, mostram a magnitude da obra. Foi impossível segurar as lágrimas quando vi estampado um agradecimento para meu pai, Orlando Ribeiro de Andrade, justamente no momento em que senti a falta dele na platéia. E para findar esse post, aproveito para falar que a Praça estava lotada e concentrada. Parece que "o artista chegou aonde o povo está".
Abaixo, poema de Reizinho...

O rei e o poeta
O poeta disse que o rei era ladrão
e mandaram calar o poeta
o poeta disse que o rei era autoritário
e mandaram prender o poeta
o poeta disse que o rei era ditador
e mandaram torturar o poeta
o poeta preso e torturado bradou
o rei é assassino!
e mandaram matar o poeta
o poeta então encantou-se!
virou estrela
nas noites a torturar o rei...
(Renaildo Pereira - Reizinho)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Logo ali, no nosso vizinho Muquém do São Francisco, está a Vila da Piragiba. Embora poucos saibam, o seu território abriga um sítio arqueológico. Urnas funerárias foram encontradas, pertencentes a tradição Aratu. Consistem em potes de barro, nos quais eram enterrados corpos e pertences de indígenas. Datam de cerca de 200 a 400 anos. Me impressiona o nosso desconhecimento do espaço que nos circuda. Certa feita me contaram que a população da Vila da Piragiba ao ter a energia elétrica autorizada para ser instalada na comunidade, teve sérios impasses com os pesquisadores. Estes acreditavam que para que o poder público pudesse entrar na localidade, precisaria investir nas pesquisas arqueológicas e tentaram barrar a chegada da energia, até que barganhassem ajuda para a continuidade dos trabalhos. A população que desejava sair do escuro, se posicionou de forma contrária a Instituição que levava as pesquisas adiante, heroicamente, diga-se de passagem, como tantas outras que resistem nesse país. Não sei se a história é verídica, mas de certa forma, acredito nela. Energia elétrica hoje é ítem de primeira necessidade. E nossa memória há muito vem sofrendo de amnésia. Também não podemos culpar as pessoas pela ignorância. A meu ver, a instituição que levava o projeto do sítio arqueológico adiante, pecou imensamente. Não compartilhou as informações com os donos do território. Não utilizaram o poder da informação a seu favor. Estiveram talvez alheios a esse processo, por subestimarem os que para eles não se tratavam de objetos de pesquisa. Um trabalho árduo dos profissionais envolvidos, desvendar a história, a partir das provas encontradas. Mas aqui na região, poucos sabem desses achados e do seu significado. Conhecimento que não se reparte portanto. Nossos alunos ainda continuam utilizando livros didáticos que mostram outras realidades distantes da nossa... O menino, próximo a Vila da Piragiba, abre o livro e vê a figura de um prédio de 20 andares. Sente vontade de conhecê-lo , mas talvez despreze a paisagem a sua volta. Enquanto doutores pesquisadores escreverão sobre os achados da sua Vila, ele só vislumbrará a estrada, com o ônibus que sempre no mesmo horário, parte para São Paulo...
Sobre o sítio arqueologico da Piragiba podem acessar o link http://www.ffch.ufba.br/spip.php?article525 para maiores informações.

terça-feira, 26 de julho de 2011




No último final de semana, ocorreram o XXV Festival de Poesia de Ibotirama - FEPI e o XXXV Festival de Música Popular de Ibotirama - FEMPI, etapa local. O coreto da Praça Ives, com uma platéia entregue a música e a poesia, me lembrou a Castro Alves, “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor/É o antro onde a liberdade/Cria águas em seu calor". Surpreendente a participação de tantos jovens no palco e na torcida. Mais surpreendente ainda, o amadurecimento de meninos e meninas que viemos acompanhando a cada ano. O nível das composições graças a Deus, se elevou. Ibotirama, aos poucos, parece estar acordando do sonho desagradável de competir de forma tão desigual com os que vem de fora. Estamos recuperando a capacidade de representar a nossa terra, em pé de igualdade!
Com relação aos resultados da etapa local, acredito que sempre haverão controvérsias. Reservar-se a imparcialidade é tarefa dificílima, acredito eu, para os jurados. E depois, vem a empatia, ou o contrário desta, o entendimento da mensagem, os sentimentos que afliguem cada indivíduo que se posta a frente dos candidatos para julgá-los! Sendo assim, é impossível agradar a todos. No entanto, o mais importante é perpetuar esses eventos, tornando as novas gerações comprometidas com o seu acontecimento, a cada novo ano... Aos que continuam acreditando e que se dedicam a essa causa (não cito nomes para não ser injusta, caso a memória me traia), apresento minhas reverências...

domingo, 17 de julho de 2011





- VIDAS -
Não sei se existem outras vidas.
Mas, essa que ora presencio, me parece como muitas....
É um entra e sai de pessoas,
um vai e vem de fatos,
um rol de mágoas,
cestos de alegria
e choro rolando pelos anos.
Sou uma e tantas em faces que desconheço.
Tâmaras mil em cenas,
roteiros,
vidas...
Me estilhaço,
me recomponho
e sigo...
Como se nunca tivesse sido...
(Tâmara Rossene)

P.S. Fotos do Vale do Capão, Palmeiras, Chapada Diamantina

quinta-feira, 14 de julho de 2011


A realização da etapa local do Festival de Música Popular de Ibotirama - FEMPI e do Festival de Poesia de Ibotirama - FEPI, está se aproximando. Em agosto, com a etapa nacional, ocorrerão a 35a e 25 edições. Me impressiona que os Festivais continuem resistindo bravamente por aqui... Eu já cantei e já declamei em passados remotos. Fiz parte do grupo Viva Voz, com Jackeline e Janaína, entonado músicas de Reginaldo Belo e Cleiton Araújo. E ousei recitar poemas meus e do meu pai. Tive o privilégio de assistir Silvio Araújo, Lamartine, Reizinho, Humberto, Paulinho Cavalcanti, Jarbas Essi, Evilásio Leite, Juarez Paulo, Washington Coutinho, e tantos outros, na ACRI, no Cenecista, na Praça Ives, no Cais, e em tantos palcos montados em Ibotirama. Uma jóia rara para cidade a realização desses eventos, com tanta expressão cultural sucumbindo a mercantilização da cultura. É verdade que a platéia tem minguado. Mas também tenho visto crescer a cada ano a participação dos jovens na etapa local. Os que vem de fora, acrescentam e mostram que não estamos sozinhos! Na próxima sexta, dia 22, espero ver a Praça Ives lotada!
Acima, posto uma foto do FEMPI de 2006. As personagens da fotografia são Manuela Rodrigues, minha cunhada talentosíssima e Mariana, tão pequenina, tocando metalofone. A música foi Desejo Batuque. Aproveito para colocar o link do site de Manuela com o seu novo trabalho, que está recebendo elogios da crítica de todo o país. Acessem, pois vale a pena.

quarta-feira, 13 de julho de 2011


Sinais

Não me agradam

Essas marcas

Assim tão desnudas

Impiedosas rugas

Meu rosto em cicatrizes

Como claras trilhas do que senti.

Ó não queria estar assim despida

Em frente aos espelhos

Nem esses sinais

Que como luzes vejo

Reflexos inversos

Do que queria ter vivido.

Quisera eu preenchê-las

Com amores, sonhos, mundos

Que deixei pra trás.

Trincheiras minhas

Oportunidades perdidas

Córrego que se esvai...

(Tâmara Rossene)


P.S. Eu em pose para Mari em Barra do Jacuípe.

segunda-feira, 11 de julho de 2011


Quando eu voltava para casa, em Salvador, gostava de acreditar que a Paralela era o corredor verde que me levava de volta... Seis anos se passaram, e de lá para cá, a reserva de mata atlântica que margeava parte do caminho que eu percorria, está dando lugar ao concreto dos condomínios e prédios. Talvez por isso um frio tenha percorrido a minha espinha, quando eu vi o primeiro outdoor anunciando o Alphaville na Paralela.
Á partir daí, tudo foi num piscar de olhos! As tais licenças ambientais, foram exemplos de celeridade e de eficiência na máquina pública! Para se ter uma idéia, já acompanhei projeto para tratar de educação ambiental ter a sua licença liberada com mais de um ano da solicitação. No entanto, para destruir nossa pequenina floresta, em míseros 03, 05, 06 meses, estava tudo resolvido. E pensar que me incutiram a idéia de que a reserva daquela mata seria para sempre... Ah, mas uns pedacinhos de vegetação e de lagoas sobrevivem enfeitando os condomínios de luxo ali construídos! Bem que Malthus previu que a população cresceria em proporção geométrica e os alimentos, em proporção aritmética. Mas, por alimentos entenda-se que "a gente não quer só comida" e aquela velha história... Então, o que era patrimônio nosso, termina sendo privilégio da pequena maioria que pode pagar por ele. E depois vem o tal problema central da economia "as necessidades são ilimitadas e os recursos escassos". Logo, quem pode pagar, leva. É a lei do mercado.


Laissez Faire
É permitido explorar
escravizar
manipular
se apropriar.
Enquanto a mão
que está bem visível
calça luvas
compradas pelo Sr. estado.

Tâmara Rossene



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Memórias Juninas



O São João é um dos festejos que mais me trás alegria. Há algum tempo nessa região, era comum ver fogueiras em que arrancavam árvores inteiras, amarravam nos galhos frutas, doces e atavam fogo. Quando a árvore caía, todos já estavam na maior expectativa e se atiravam sobre ela para arrancar o que estava preso. Eu como ainda era muito pequena, adorava acordar cedo, depois da festa de São João, para ver se havia sobrado alguma balinha presa nos galhos dessas fogueiras. Hoje em dia arrancar árvores nem pensar. Mas me lembro também que a festa junina sempre trouxe muitas fogueiras acesas pelas ruas daqui de Ibotirama. As casas, por mais humildes que fossem, sempre tinham um foguinho a porta, canjica no fogão, às vezes milho...nas mais abastadas, outras delícias típicas, e um licorzinho, que não vemos mais por estas bandas. Na casa dos meus avós o São João sempre foi muito festejado. Na casa dos meus pais fomos seguindo os costumes... Agora vejo muita gente se queixando porque credita ao poder público a responsabilidade de produzir mega eventos nessa época. Mas essa sempre foi uma festa tão nossa, tão íntima...assim como há uma simbologia na fogueira de São João, creditando a sua existência a fogueira acesa por Isabel para avisar a Maria que estava grávida de João Batista, a fogueira para nós era como uma simbologia as nossas tradições se perpetuando pelo tempo... A minha memória volta em tantos fatos que vivi nesses festejos... os fogos de artifício comprados por meus pais. O susto que levei numa dessas vezes quando fui pegar algumas bombinhas de salão escondidas e derrubei o pacote inteiro de cima do guarda roupa. As barraquinhas que eram montadas aqui na Praça da Bandeira, com turmas de alunos do Colégio Cenecista. Um desses anos que passei ali na Fazenda da família Simões. As quadrilhas na quadra do Cenecista... Ontem tive a sensação de que as fogueiras estavam se apagando aqui entre nós. Mas ao acender os meus pauzinhos na frente de casa, vi que eu não era a única... Hoje, ficamos mais de uma hora sem energia, ao cair da noite. Foi surprendente ver aqui na Juracy Magalhães, tantas fogueiras acesas. Depois percebi que elas também existiam na JJ Seabra, na Av. ACM, em parte da Alcebíades Quinteiro, na Manoel Novais e imagino que em outras ruas por onde não passei. Crianças iam e vinham de todos os lados soltando fogos. Sinal de que nem tudo está perdido. E que dentro de nós, ainda crepitam as labaredas das fogueiras de São João....



Acima, uma foto do São João de 2007, aqui em Ibotirama, prá matar a saudade e outra tirada por Mariana, das fogueiras da minha rua.