segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



Pelo novo ano que se inicia, minhas reverências ao meu lugar e a janeiro que é prenúncio de tudo e é quando completo mais um ano desde a minha volta a Ibotirama. E vou completando mais um...Um Feliz novo ano para todos, dessa e outras paragens!

Gosto de andar na cidade
e ser chamada pelo meu nome.
Olhar para o céu a noitinha
e enxergar uma a uma
as estrelas.
Saber que o vizinho da direita
carregou-me nos braços
assim que nasci.
E que o da esquerda
me trazia frutas do seu quintal
nos meus verdes anos.
Que o nome daquela rua
foi de um conhecido do meu avô
que derrama sobre mim as suas histórias.
Que a menina de tranças na bicicleta
será apontada como minha filha
e como ela mesma.
Gosto de saber que na calada da noite
os bêbados, os vândalos
e os doidos
são mansos e conhecidos.
Gosto dessa sensação de todos termos um rosto
e um nome.
Cansei
de andar anônima por aí...

P.S. Na foto, um cenário nosso, o pescador jogando a rede, porque assim desejo que estejamos todos...


domingo, 9 de dezembro de 2012


Fico pensando em quantos grupos existem dentro do universo que chamamos de “cultura de Ibotirama”. Muitos tem expressado o desejo de trazer a tona a diversidade do que ainda resta, mas ainda há tantos separatismos por detrás dessas expressões de boa vontade, que estamos sempre impedidos de avançar. Os dedos estão quase sempre em riste, apontando as falhas, dissipando energia em suscitar culpados, enquanto o tempo vai apagando a memória... Nesse universo, há os que detém o poder formal, os que tem o privilégio da informação, os que decidiram seguir sozinhos o caminho da arte, os que bradam aos quatro ventos, os que se calam amargurados... Há ainda, o silêncio daqueles que não sabem do seu espaço nem da sua voz, como os grupos populares. Há os que sequer sabem o valor do seu trabalho, porque não lhes foi dado o seu espaço. Não tenho nada contra os grupos que se formam, mas é preciso nos despir um pouco dessa magoa que nos corrói. Porque na verdade, de uma ou de outra forma, nosso desejo (acredito eu) é o mesmo. As habilidades de um ou de outro, nunca serão as mesmas, assim como as virtudes e os defeitos. O pensar a cultura precisa extrapolar o universo dos pequenos grupos e das cabeças solitárias. Senão estaremos sempre padecendo dos mesmos males. É preciso construir estratégias para se aproximar do cotidiano das pessoas, sem parecer “conversa chata” de intelectuais. É preciso se aproximar das novas gerações para assegurar que essa diversidade seja um legado para as que estão por vir. Não quero morrer entalada com o canto das lavadeiras, as enchentes do Santo Chico, as histórias de assombrações nos becos... coisas que vivi e que lembro tão nitidamente, mas que correm o risco de irem embora comigo, se eu resolver me calar... Quero muito esse movimento dos grupos e das cabeças se abrindo, da cultura que se impõe, em detrimento de nossas vaidades e de nossas limitações...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Essa coisa de lidar com a morte, sempre me intrigou...Perdi o meu pai há menos de dois meses de ganhar um filho, numa manhã ensolarada de janeiro. Morte e vida ocupando praticamente o mesmo espaço. E João chegou através de uma mãe repleta de antagonismos... Numa manhã de abril, quatro dias depois do aniversário do meu pai. Misteriosamente, o meu pai, que não entrava em cemitérios e que sempre voltava da porta quando era obrigado a ir até lá, não sei se por pavor, ou por não saber lidar com a situação, apesar de termos escolhido diversos lugares para a sua sepultura, a única que deu certo foi exatamente no portão, praticamente no mesmo local onde ele se postava, para não arriscar um contato maior com o universo desconhecido. Não sei se coincidências, acaso, ou o desejo de que tudo tenha sempre uma explicação. E o meu filho nasceu com os mesmos olhos rasgados do meu Orlando que se foi...
E num dia como hoje, quando fico perto de alguém que está atravessado pela mesma dor, fico com a impressão de que posso ganhar rios de maturidade, a morte sempre será algo com a qual não saberei lidar. São muitas perguntas sem respostas. São muitas respostas que nos damos apenas para acalentar o espírito. Me pego misturando suposições e realidade, sem dosagens certas, apenas querendo compreender...Na verdade, acho que o mais difícil de lidar é com a ausência do que esteve tão próximo. As lembranças assustam tanto quanto os fantasmas. Não é o assombro que me causa temor, mas o desconhecimento e a saudade... Meu avô Irineu dizia "que tudo passa, só não passa a espada de Deus". Acho que essa era uma descrição prá o que não se pode evitar, prá morte, implacável...
Abaixo, um poema do meu pai...Também inquisidor, também querendo respostas, também desejando que houvesse algo mais além...


QUEIXUMES
                                                  

SINTO...
Como o rio
Desliza velozmente,
Como o barco
Singra mansamente
...as correntezas além
Como
o vento passa incontrolável
Fustigando impiedoso
O rosto calmo de alguém,
Levando na poeira
Arrastada
Esperanças de quem está só!
SINTO...
Como espinha e egoísmo
Desbotando o sorriso
Da alegria que sobrevive,
Em Vão...
E na tristeza que tanto deprime,
SINTO...
Como num pesadelo
O espinho duro da verdade
Sangrando-me o Coração
...nada muda
Estou seguindo para um fim.
Um fim verdadeiro,
Que será o começo
De uma realidade nova
Que jamais
Saberei Cantar. 

 (Orlando Ribeiro de Andrade)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Tenho medo do que vivo agora
essa palpitação
esse pulsar
esse contar das horas
esse desejo de que a ampulheta se esvaia
só prá te encontrar...
Tenho medo desse recomeço que me espera
como se fosse ontem
sob a sombra da nossa árvore
quando eu caía em teus braços
e o mundo parava contemplativo
apenas para que trocássemos juras de amor...
Tenho medo desse meu desejo repentino
de ficar ouvindo seu resfolegar
enquanto se afoga em minhas madeixas.
Tenho medo dessa vida que me espreita
quando tudo parecia haver ruído
e do caos a nossa música toca
e você me aguarda com esse sorriso torto
da beira do abismo
e me convida a pular no infinito...

                                             (Tâmara Rossene)
No final de semana um Redemoinho salta de repente sob meus olhos...O vento e a poeira arrastam prá longe meus pensamentos e começo a divagar no tempo...Estávamos em Barreiras, morando ali pelo Sandra Regina, em plena década de 70. Acho que era um feriado de sete de setembro. O meu pai tentava tirar um cochilo e da cama observava pela janela aberta, um Redemoinho que parecia estar a quilômetros da nossa casa. Estávamos na cozinha, eu, minha mãe e meus irmãos. De lá, ouviamos claramente a voz do meu pai, narrando a trajetória do pé de vento. Dizia que estava arrastando tudo a sua volta e que tinha aumentado de tamanho e soube precisar exatamente a localização geográfica em que ele se encontrava. Depois complementou, falando da bobagem que considerava as pessoas dizerem que dentro de cada Redemoinho tinha um capeta dentro. E aí passou a desafiá-lo falando que não acreditava nessas crendices populares e que queria ver o tal pé de vento chegar naquele momento na sua casa. E sorriu, talvez acreditando que ele mesmo estivesse perdendo tempo com vento e poeira... Foi nesse momento que ele percebeu que ia se deitar com sede e se levantou para ir tomar um copo d'água. Nesse exato momento, quando já estava de pé ao lado da cama, um barulho ensurdecedor chegou até nós. O tal Redemoinho em milésimos de segundos destelhou a nossa casa e jogou dezenas de telhas em cacos sobre a cama, onde há pouco estava o meu pai...Ele, alvo como papel, depois de passado o susto, não perdeu a pose e disse que se o pé de vento tinha o capeta, ele tinha Deus, que o tirou da cama antes. E agora, essa história vem com o mesmo rompante das telhas sobre a cama, arrancar-me da rotina fustigante e me fazer sorrir... Mas prá você fica o recado, se não acredita, melhor não ousar desafiar...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Hoje estou envolta em vazio.
O peito dói.
A alma dói.
O mundo parece findar ali
na repetição do que me incomoda.
Na maldita memória em círculo...
 E eu só queria uma borracha silenciosa.
Desmemoriar...
E depois
o cheiro de chuva
um colo...
Embora nada me console
(pode ser que um começo me espere
na esquina) 
resisto
na capacidade que ainda me resta
de desejar... 
                                (Tâmara Rossene)

A primeira vez que vi Brasília, eu tinha uns sete anos, a madrugada corria solta, fazia frio e eu olhava boquiaberta para aquele mar de luzes... Estávamos em viagem de família...o Planalto Central me pareceu um outro mundo, com aquelas peças de concreto em formatos inimagináveis para os meus olhos de menina. Lembro-me que foi a primeira vez que eu vi um helicóptero. Assisti bestificada ao movimento da guarda no Palácio do Planalto e aos reflexos que preenchiam  todos aqueles espelhos d'água. Naquele momento entendi que correr trecho era o meu maior desejo, embora só compreendesse assim tão claramente, muitos anos depois... E muitos anos depois, cheguei até o coração do Brasil com uma visão muito menos poética, na Brasília que eu via, com diferenças sociais gritantes, nos quilômetros que separam o Plano Piloto de algumas cidades satélites, nos túneis fétidos, na opressão que emana das pichações...Agora, vendo-a assim de tão perto, sou um misto de sensações, na frieza quebrada através dos ipês floridos, na voz distante do meu pai, que me dizia para ir morar por aquelas bandas, num saudosismo que me invade, quando observo o cotidiano  injusto que se esconde sob a correria, as janelas de vidro, as formalidades, o que se esconde sob o tapete, mas que aqui está colocado bem no meio da sala, lixo exposto, na engrenagem do centro de decisão...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Do lado de cá das bandas do Velho Chico, tanto quanto dos outros lados e em outras bandas, a indústria do carro pipa continua... A seca, sempre sendo anunciada como uma catástrofe, que cai sobre nós, inesperadamente... Quando na verdade, é característica do nosso espaço geográfico. Fico me perguntando, porque que tantas tecnologias testadas prá conviver melhor com o clima que nós, do lado de cá, conhecemos tão bem, sempre ocupam o quarto dos fundos, enquanto os mesmos paliativos de sempre permanecem... Mas o nosso perfil também mudou muito. Nós que somos sertanejos da zona urbana, temos água farta nos canos, e embora o sol ainda nos escalde pelas ruas, estamos consumindo tudo aquilo que torna mais ameno nosso modo de passar por esses tempos de calor fustigante. Tudo o que falta por aqui, quando a lavoura não rende seus frutos, nos chega em caminhões, transportadoras, nos canais de distribuição que agora estão a nosso dispor. Se vivêssemos nos tempos de outrora, os lombos dos animais não seriam tão eficientes, nem teríamos tantas parafernálias a nosso dispor, pra refrescar os calores que nos assombrassem... Parece que no passado, éramos mais solidários. Ou, como os efeitos acabassem chegando até as cidades, a pele sentida se manifestava...
Como podem ver, embora aparecendo em espaços de tempo cada vez maiores, continuo em meus devaneios... Não sei se me acovardando por detrás dos escritos, ou se eles não são exatamente o tiquinho de coragem que ainda me resta...

domingo, 11 de março de 2012

Acho que gosto dessa coisa de fazer projeto, porque é sempre um novo começo. Pensar, descartar idéias, colecioná-las, orçar, imaginar se o formato cabe no lugar, no tempo e no espaço... Gosto principalmente de viajar no nome. Não consigo avançar enquanto não nomeio a idéia. Na maioria deles, tenho que me apaixonar pela concepção. O Projeto Redemoinho foi assim... Pensar na Cultura Popular girando como os ventos que outrora destelhavam as casas e jogavam poeira em nossos rostos, os redemoinhos aqui das bandas do Velho Chico... Resgatar e recriar...Ontem o Projeto esteve no Muquém do São Francisco e fiquei um tempo apreciando os bastidores fervilhando. Cerca de vinte pessoas (a maioria adolescentes) se mexendo prá montar o espetáculo. Uma grande vitória poder remunerar quem gosta de fazer arte! A participação de grupos populares (a maioria de idosos), é outra grande conquista! E o povo fazendo número na platéia, sorrindo, participando...Superando aquilo que foi formatado no papel. Um presente prá essa mera "artesã" de projetos que vos escreve...
Abaixo, fotos por Mariana Bomfim, dos bastidores e do espetáculo. Atentem para a Mulher de sete metros...




Acessem www.blogredemoinho.blogspot.com

sexta-feira, 9 de março de 2012

Me lembrei que certa vez estive ali pelas redondezas do Cantinho, visitando a casa de um dos moradores da localidade. Observei que a casa de aparência simples, não tinha banheiro e perguntei ao seu dono, onde os moradores da residência faziam as suas necessidades fisiológicas. Ele apontou um matinho próximo, em resposta a minha pergunta. Ao entrar em seus aposentos, observei uma televisão de grandes proporções e ao olhar para o quintal, uma antena parabólica que contrastava com as quase ruínas do casebre. Ainda intigrada com a ausência do banheiro, virei-me para o Senhor e utilizei todos os meus argumentos e conhecimentos básicos sobre higiene, para tentar convencê-lo da prioridade que ele deveria dar ao reservado para as necessidades dele e dos seus familiares. Ele continuou irredutível e eu indaguei: - Por que o Senhor não vende a antena e a TV e não constrói o banheiro? Ele se virou e me veio prontamente com a resposta: - E eu vou luxar de que?
Me mantive em silêncio e aquela pergunta ficou por muito tempo martelando o meu juízo. Fiquei pensando se poderia eu julgá-lo. Como ele, muitos mais esclarecidos e com acessibilidade a outros meios, preferem outros luxos, ainda que envoltos em camadas de purpurinha que se soltarão pelo caminho. Muitos bem mais abastados preferem por exemplo, investir no que é fútil, em detrimento da educação. O tal Senhor, talvez por pura ignorância, ou talvez por acreditar necessário mesmo, prefere continuar usando a moita, a abrir mão da talvez única parcela de lazer que lhe é permitido ter. O único luxo... Muitos são os que podem se dar ao luxo desmesuradamente e ainda assim, optam pelo que está detrás da moita daquele Senhor... E você que me lê nesse momento,
do que anda luxando?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ledo engano, cinco escolas de samba do Rio de Janeiro levaram para a Avenida, temas relacionados a cultura nordestina. E eu de cá, longe da muvuca carnavalesca, fiquei a refletir com meus botões...No curto espaço de tempo em que estive em Belo Horizonte provei um tanto do mal que sofrem nordestinos entre os povos lá do sudeste. Até uma manobra errada feita por um taxista no trânsito, foi "carinhosamente" apelidada de "baianada". Deparei-me com uma prática, por vezes acirrada, de apontar o sul e o sudeste como berço de raças superiores, em detrimento dos inferiorizados nordestinos, que estiveram e estão nas engrenagens que movem as cidades desses deuses. Moiçolas e rapazes viajam léguas e pagam caro prá se acotovelar entre as cordas dos blocos, na grande folia momesca, numa festa em que baiano trabalha duro prá sulista e turista se divertir! Uma Sapucaí inteira aos nossos pés, rendida aos ditames da cultura popular nordestina. No entanto, apenas alegorias, meus caros, cá fora, a realidade é bem divergente dessa que se mostra, nessa alegria fugaz...

Carnaval
Sustentando a corda
prá nobreza passar
se arrastam os cordeiros!
Essa é a grande festa popular da Bahia!
À frente a plebe
tomando porrada
prá nata se divertir ilesa.
Brindamos a orgia
ao carnaval
a alegria eventual...
Enquanto do outro lado
da rua
a vida
nua e crua
se desenrola
sem confetes
no pequeno catador de latas.

(Tâmara Rossene)