sexta-feira, 29 de junho de 2012

Hoje estou envolta em vazio.
O peito dói.
A alma dói.
O mundo parece findar ali
na repetição do que me incomoda.
Na maldita memória em círculo...
 E eu só queria uma borracha silenciosa.
Desmemoriar...
E depois
o cheiro de chuva
um colo...
Embora nada me console
(pode ser que um começo me espere
na esquina) 
resisto
na capacidade que ainda me resta
de desejar... 
                                (Tâmara Rossene)

A primeira vez que vi Brasília, eu tinha uns sete anos, a madrugada corria solta, fazia frio e eu olhava boquiaberta para aquele mar de luzes... Estávamos em viagem de família...o Planalto Central me pareceu um outro mundo, com aquelas peças de concreto em formatos inimagináveis para os meus olhos de menina. Lembro-me que foi a primeira vez que eu vi um helicóptero. Assisti bestificada ao movimento da guarda no Palácio do Planalto e aos reflexos que preenchiam  todos aqueles espelhos d'água. Naquele momento entendi que correr trecho era o meu maior desejo, embora só compreendesse assim tão claramente, muitos anos depois... E muitos anos depois, cheguei até o coração do Brasil com uma visão muito menos poética, na Brasília que eu via, com diferenças sociais gritantes, nos quilômetros que separam o Plano Piloto de algumas cidades satélites, nos túneis fétidos, na opressão que emana das pichações...Agora, vendo-a assim de tão perto, sou um misto de sensações, na frieza quebrada através dos ipês floridos, na voz distante do meu pai, que me dizia para ir morar por aquelas bandas, num saudosismo que me invade, quando observo o cotidiano  injusto que se esconde sob a correria, as janelas de vidro, as formalidades, o que se esconde sob o tapete, mas que aqui está colocado bem no meio da sala, lixo exposto, na engrenagem do centro de decisão...