terça-feira, 13 de agosto de 2024

 Em todas as vezes em que eu vinha passar as férias em Ibotirama, voltar pra Salvador era um passo difícil. Partir pra longe da família de origem, dos amigos, da paisagem. Vir morar aqui em definitivo parecia muito bom, pelos reencontros. Mas deixar o mar e todo o fluxo que o envolvia não foi fácil! Então quando me dizem que é preciso encerrar ciclos, eu penso em todas as minhas partidas e chegadas. E me recordo que na tristeza do partir, o que me consolava eram as memórias felizes que me acometiam. Nunca é sobre a coragem de encerrar. Mas sobre a forma como carrego essas memórias. Se elas pesam ou me embalam. Tudo ficou mais fácil, depois que eu descobri que é a minha visão sobre aquilo que deixei, que ditará meu novo caminho...

sábado, 10 de agosto de 2024


 Eu ainda me lembro quando a nossa beira de rio tinha um movimento intenso, provocado pela dinâmica de quem dependia inteiramente dele. As pessoas saíam e chegavam através de embarcações. Compravam os alimentos que vinham atraves dele e vendiam a sua produção velejando através dele.  Eu me lembro das latas cheias d'água na cabeça e das roupas estendidas na beira do rio. Do canto das lavadeiras misturado ao cheiro do sabão. No agora, tudo é mais facilitado. A gente compra tudo com um clique ou atravessando a rua. A torneira jorra água limpa e farta. Mas, ledo engano, a gente acha que não depende do rio prá sobreviver. E com nosso descaso, estamos pagando prá ver...

Enquanto isso não acontece, posto por aqui, uma foto tirada por minha irmã, Orlamara, do Velho Chico, em Bom Jesus da Lapa, com o sorriso dessas moças, repletas de vida,em sua interação com o rio, prá acalmar nosso saudosismo e alegrar nossas almas ribeirinhas...

segunda-feira, 5 de agosto de 2024


 

Eu nasci e cresci  em família católica. Estudei um tempo em um Colégio de freiras. Li sobre a vida dos Santos. Fui batizada, fiz primeira comunhão e crismei. Já frequentei Igrejas Evangélicas. Depois percebi que eu precisava conhecer outras crenças, pra vencer preconceitos enraizados. Não era sobre religião, mas sobre espiritualidade. Pesquisei sobre Orixás. Li mais a Bíblia. Fui conhecer um terreiro. Visitei o Vale do Amanhecer. Passei por um Centro Espírita. Conversei com caboclos. Entoei outros cantos. Saudei a Jurema. Tomei um chá Sagrado.  Me deixei ser abraçada pela força da natureza. Hoje compreendo que nesse universo imenso, colorido e abundante, cabem todos! O Divino não se limita! Eu nunca duvidei da existência de um Criador. Mas hoje compreendo, que por ser a fonte e estar em tudo, ele não está a distância, alheio, como mero julgador. Acredito no Supremo, como a força motora, que para mim movimenta tudo o que existe! O Uno é o todo! Salve!


P.S. Na foto, á vista do quintal de Adriano Casanova, na Pedra Preta. Prá reverenciar, a grandiosidade de Deus!

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

 Ele dizia que me amava. Falava que eu era linda, passava horas me olhando, até encher o olho d´água.  Mas me afastava dos que demonstravam sentir amor por mim. 

Ele passava as mãos no meu cabelo, elogiava a minha aparência e dizia que me amava. Mas um dia sugeriu que eu abandonasse o batom vermelho e as preocupações com a estética, porque eram exagero. 

Ele afirmava que me amava. Mas censurou o meu sorriso largo. Me olhou feio quando riram de uma piada minha. Lia o que eu escrevia, mas me disse odiar quando me abraçavam como poeta.

Ele dizia que me amava. Mas questionou a minha independência financeira. Dedo em riste, rechaçou a minha autonomia.

Ele proclamava aos quatro ventos que me amava. Mas me pediu silêncio absoluto.

A condição do amor dele era que eu deixasse de expressar o que eu vim pra ser, assim tão abertamente.

Eu aceitei o amor que ele me ofereceu, mas passei a me sentir triste, porque não queria contrariá-lo.

E ele disse que continuaria me amando. Desde que eu esquecesse quem eu era. Porque ele se incomodava quando eu ousava voar na luz da manhã, nos finais de tarde ou nas noites de lua.

Então me convenci de que o problema não era ele. Era comigo.

Até que um dia eu descobri, que acreditei em uma mentira. Ele não me amava.

E foi aí que eu comecei, nesse movimento intenso de redescoberta. Pra construir por minhas próprias mãos, esse amor de que tanto falam e do qual creio ser merecedora...



quinta-feira, 1 de agosto de 2024

 Recordo-me que na adolescência (aos 14 anos), arrumando a bagagem pra estudar na capital, eu falei em casa que jamais voltaria para Ibotirama. Meu pai, cheio de sabedoria, me alertou: Cuidado, minha filha. Ouvi muita gente dizer isso e voltar. E ser mais feliz aqui. Certamente pensava na própria história. Ele mesmo, voltara após longos anos. Fato é que depois de vinte anos, eu voltei arrastando minhas ressalvas, meu companheiro, minha filha, algumas mágoas e o medo de estar retrocedendo, ao inverter a lógica e sair da capital para o interior. Hoje vejo que eu precisava me reconciliar com o meu torrão natal. Precisava vivenciar os últimos anos do meu pai e dos meus avós Minervino, Irineu e Josefa. Acolher a menina chorona que em mim habita e mostrar a ela que a cidade é o porto das minhas memórias. Talvez por isso aqui eu tenha escrito tanto, me atirado a esse universo da arte, da palavra, da cultura, como um náufrago se atracando ao bote. Em nenhum outro lugar eu pude  ser tanto, eu mesma! Talvez por isso, eu consiga ressignificar o abismo. Penso nos gatilhos de ansiedade que sofri, morando numa cidade barulhenta e distante da família. Penso na solidão de tantos dias. Hoje esse retorno, que já foi desespero, é acolhimento. Na minha infância, os finais de tarde aqui, para mim, eram tão solitários que me faziam chorar. Hoje, o céu alaranjado, ás vezes com uma lua nova surgindo, é motivo de uma alegria desmedida. 

Eu voltei prá me reencontrar! E tenho celebrado esse abraço apertado a que tenho me permitido. Toda a minha gratidão ao Universo!

Aproveito e posto essa foto do cais, ao cair da tarde, com a vista da casa de Dona Ivaí. Uma das lembranças que fazem a minha criança interior sorrir. É a ela, que ofereço essa festa.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

                                Diário do avc - parte II


Eu sempre fui ansiosa.  Uma pressa. Uma agitação. Um desejo de fazer correr o tempo. Tio Bé dizia sempre: - ô, menina agoniada! Quando criança, a pressa em falar era tão grande, que eu gaguejava. Eu mal respirava. Na adolescência, eu segui querendo tudo num estalar de dedos.  E fui me tornando mulher, numa correria desenfreada.  Estudei. Trabalhei. Pari. Cozinhei. Me exercitei. Amei. Fazendo tudo desembestadamente. Hoje penso que o avc, que prá mim foi o caos, veio dizer: - Minha filha, relaxa! Eu que gosto tanto de natureza, de poesia, de música. Pouco parei para contemplar. E prá amar a mim mesma. E não foi por falta de tempo. Nem de oportunidades. Foi pela pressa de existir...

 Eu sou a filha do meio de Orlando e Maria.

Cheguei quando o rio
se sobrepunha a rodovia.

Cria do Velho Chico e Iansã
eu sou a que se encanta 
na luz da manhã.
Prá espalhar as vozes de Anália, Josefa, Irineu e Minervino.
a que renasceu no caos
prá no cais ressurgir
num por do sol laranja
e infindo.

Eu sou a lua cheia nos beirais.
E sigo inteira
em lugares
onde não poderei estar
JAMAIS!

(Tâmara Rossene)