Nada é mais potente, do que um amor vivido. Daqueles que parecem ler as nossas almas, no silêncio. É como se eu me sentisse gerada no ventre do amor, desse universo grandioso! E eu não me refiro só a vivência homem-mulher. Mas a um sentimento que transcende. Para lá do sexo, eu estou em você. E você estará, para sempre, em mim...
Chocalho de Dentro
Crônicas, Poesias,Fotografias, Escritas cotidianas para não sucumbir...
quinta-feira, 12 de março de 2026
quarta-feira, 4 de março de 2026
Eu te sinto Mãe Pequena
na coragem que habita
o meu corpo franzino.
E sei que são teus
os olhinhos puxados do meu pai
do meu filho
os meus
e os de vovô Irineu.
Eu te sinto Mãe Pequena
no medo
desse mundo tenebroso.
Do extermínio
e do homem ardiloso.
E quando em mim ecoa
o rugir sedento da onça
é no desabrocrar das flores da juremeira
e dos ipês
que eu te sinto mãe cabocla.
Eu te sinto no silêncio e no barulho
das águas do rio
em explosão
nas nuvens.
No vôo dos anuns
na alvorada.
Eu te sinto
no meio da natureza
lavando minh'alma
feito queda d'agua.
Na imensidão
do teu saber
feito teia.
E quero minha Mãe
o calor do teu colo
minha aldeia.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Ele tinha aquela imponência de quase dois metros de tamanho, pés bem esculpidos, sorriso farto, cabelos prateados, olhos miúdos e profundos, mais o que mais me lembro dele, é do gosto de liberdade.
Ás vezes isso lhe dava um certo ar de rebeldia. Mas mesmo nesse aspecto, ele era de uma gentileza, que me enebriava.
Foi nele que eu descobri que os pássaros são mais bonitos se lançando ao vento, sem amarras, nem grades. E que há muito mais celas entre nós, do que podemos supor. Ele me ensinou que nem tudo que parece vício, é verdadeiramente um. Pode ser só mais uma forma de expressão.
Foi com ele que o chá amargo fez-se doce e no portal que se abriu, eu o vi guerreiro e urso pacífico, com o cocar sobre a cabeça, interpretando o mundo.
E foi no gozo frenético em que eu quis gritar, que ele me ensinou sobre o silêncio.
Mas a maior lição, ressoa retumbante em meu peito. Por isso, eu nunca consumei aquele pedido de casamento: Não se prende o que nasceu para ser liberto.
E é assim que eu o vejo, todos os dias, nos sonhos que ainda povoam a minha mente: Pássaro imponente, circundando o céu!
quarta-feira, 11 de junho de 2025
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
Quando meus avós materrnos Anália e Minervino moravam ali na esquina da JJ Seabra (antiga rua do Quebra Perna), lembro do entra e sai dos vizinhos: Dona Tavinha, Dona Francisca, Dona Honorinda; do outro lado, Dona Nô, Dona Caçula. Todos tinham algo plantado no quintal. A casa dos meus avós era uma espécie de pomar e ainda abrigava um galinheiro e um chiqueiro. E do nada, aparecia alguém com pinha, goiaba, mamão, romã, ovos. Eu, menina chorosa, me sentia cuidada por todos, naquela frase: O que foi, Taminha? As crianças, eram cuidadas pelo coletivo e entravam e saiam das casas, com total liberdade. Num tempo, em que as portas das casas se fechavam tarde, sob a luz de lamparinas fracas e lanpiões a gás.
Ali na rua primeiro de janeiro, onde moravam vovô Irineu e Vovó Zefa,meus avós paternos, lembro da vizinhança dividida com Seu Izidoro, Seu Fabriciano, Seu Tomás. E do café da tarde, tomado com Dona Ruzu.
Tenho a impressão, de que tínhamos mais fartura e vivíamos mais felizes. O que me leva a crer, que a vida faz mais sentido quando vivida assim, em comunidade. E me faz acreditar, que a partilha é o caminho...
quinta-feira, 9 de janeiro de 2025
sexta-feira, 30 de agosto de 2024
Débora era minha melhor amiga, na terceira série primária; no Colégio Santa Doroteia, no Garcia,em Salvador. Pegávamos o mesmo ônibus para a Federação, na rua Araújo Pinho, no Canela. Ela descia no Parque São Brás e eu, dois pontos depois, ali na altura da TVE. Conversávamos sobre gibis e livros e éramos boas alunas. Mas, depois de muitos meses de amizade, Débora se transformou num pesadelo. Certa vez eu estava andando com umas amigas e vizinhas, pelo Parque São Brás e encontramos uma cartela de fichas telefônicas. Sem sabermos para quem ligar, digitei no orelhão, o único número de telefone que eu sabia de cor: o da casa de Débora. Foram mais gracejos ao telefone, com minhas três vizinhas se revezando, do que conversa propriamente dita. Afinal,naquele tempo, telefone fixo em casa, era um luxo. E uma simples ligação telefônica (mesmo nos telefones públicos), era novidade.Depois soube que elas gravaram o número e que foram muito os "trotes", para a casa da minha amiga do colégio. Eu nunca soube se essa foi a razão, mas o fato é que a minha colega e companheira do recreio e da volta prá casa, passou a me perseguir todos os dias, criando situações diversas para me ridicularizar. Na época, uma personagem feia de uma novela, chamava-se Ieda. E esse passou a ser o nome pelo qual ela me chamava. Simulou um concurso de beleza e disse que eu ganhei o título da mais feia da sala. Essa notícia ela deu, passando um papel com a informação, de mão em mão. E não parou por aí. Espalhava prá escola toda que eu tinha bafo de onça.Jogava bolinhas de papel em mim e dizia que eu era a lixeira. Me convidava para participar de jogos de baleado, porque sabia que eu jogava mal e fazia comentários maldosos durante o jogo. Nos jogos de garrafão, no estacionamento da escola, me dava cotoveladas e sorria vitoriosa, com o meu desequilíbrio, quando eu caía em meio aos pedregulhos.
Tentei contar a minha mãe sobre o meu sofrimento,mas o que ouvi foi que Débora tinha inveja do meu cabelo liso, já que ela tinha o cabelo "duro". Que ela parecia um machão. E que eu era boba por não dizer isso a ela para me defender. A minha tristeza recorrente, levou a minha mãe até a escola, procurando ajuda da doce professora Marly, que até então, nada havia percebido. A represália a Débora, pois a notícia chegou aos pais, tornou a minha vida mais difícil. Os apelidos aumentaram. As risadas de deboche também. Débora colocava o pé na minha frente para que eu tropeçasse. Puxava o meu cabelo. E incentivava a turma a rir das minhas respostas na sala de aula. Mas o que mais me incomodava, era a sua indiferença comigo. Eu a observava a distância no ponto de ônibus, no trajeto para casa, na sala de aula. Eu queria contar sobre as últimas leituras. Sobre os livros pegos num ritmo frenético,na biblioteca do colégio. Mas Débora me ignorava. E me maltratava.Para completar, passou a jogar bola (ela era ótima nisso) com Charles Duprat, o menino por quem eu era apaixonada. Eu chorava confidenciando tudo a freira da biblioteca (irmã Ieda). Eu olhava para aquela menina da minha idade (12 anos), apesar de um pouco mais alta e forte; morena, com cabelos crespos repartidos ao meio e presos em fitas azul marinho, lábios e nariz grossos, considerada feia para os padrões de beleza da época. Olhava para a minha aparência delicada e pensava no que dissera minha mãe. E em meio ao suor escorrendo nas mãos e na testa, eu me perguntava porque eu não reagia a maldade de Débora. A verdade é que eu tinha medo. Eu a achava forte. E me considerava frágil!
Eu estudei quatro anos com Débora me maltratando. E depois de mudar de cidade e de colégio e de ficar dois anos longe, eu voltei para o Santa Dorotéia. Na matrícula, apresentaram-me duas salas. Uma com alunos novos e outra, com veteranos.Numa delas, lá estaria minha algoz. Eu engoli em seco, tremendo; e escolhi ficar na sala de Débora, que agora mal me olhava de longe, parecendo até meio constrangida. Apesar de termos crescido, as memórias ainda me amedrontavam. Eu ainda suava muito quando a via. Mas foi só quando compreendi que todo o poder que Débora julgava ter, foi dado por mim. Só quando descobri, que ela precisava da minha fragilidade, prá se manter forte. Perante ela e perante os demais. Só à partir daí, as coisas começaram mudar.