Eu sou a filha do meio de Orlando e Maria.
quarta-feira, 31 de julho de 2024
segunda-feira, 17 de junho de 2024
Eu antes tinha como meta prá minha vida, uma cadeira giratória, numa sala refrigerada e a tranquilidade de um emprego estável. Depois de muito esforço, essa realidade chegou, junto com a mecânica dos papeis, no cotidiano burocrático e repetitivo. E eu me senti escrava desse cotidiano! Penso nisso observando, em pleno sertão, as barrigudas em flor. Fugindo a predominância da paisagem ressequida, a floresta de galhos secos, a caatinga que se estende, sem folhagem, em alguns pontos, a exuberância da árvore em contraponto. Sendo apenas ela, uma festa! Nesse ponto, fico pensando em como nos prendemos a ilusões.
Porque depois de tudo o que eu vivi, se me perguntam o que eu queria viver no agora, eu respondo que eu queria estar sentada na sombra de uma barriguda florida. Porque onde tudo parece limitado, eu quero aprender a ser possibilidades... Como a explosão de galhos floridos, em plena seca do sertão!
Foto cedida pela querida índia catingueira, em Irecê - Bahia.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
A minha mais recente descoberta é que não, eu não sou uma mulher corajosa. Aí vocês vão me atalhar dizendo: Mas você venceu um avc. Mais passou por tais e tais processos... É, eu sei. Mais a minha mais recente descoberta, é que a minha maior sombra é e sempre foi O MEDO! Desde quando diziam que eu era uma menina caluduzeira, desde quando me taxaram de melancólica, paranóica ou problemática. Desde quando eu não dei um basta. Desde sempre... E porque dizer isso agora? talvez porque talvez haja esperança dos fantasmas sumirem quando a gente os enfrenta. Sabe Belchior? " foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez, na sua mão..." Sem romantizar, se o medo pemanece, eu não me permito.
Mas, de, tantos talvez, a verdade mesmo é que eu quero me tornar essa mulher que dizem por aí que eu sou. E prá mim o maior ato de coragem, é não me importar com os julgamentos e assumir a minha maior fraqueza: SIM, EU SOU MUITO MEDROSA! Só admitindo quem eu sou de verdade, chegarei além...
Só assumindo, poderei me tornar verdadeiramente EU!
terça-feira, 4 de abril de 2023
Na minha infância, quando eu morei um período em Barreiras, chegar ao povoado da Passagem, era sinal de que eu estava prestes a abraçar meus avós, Anália e Miné. A travessia de balsa até a outra margem, eu fazia com os dedinhos se movendo nas mãos entrecruzadas, coração aos saltos, doida prá sentir o cheiro do escaldado de farinha, o gosto do bolo de nata, dos bolinhos de comida na gamela; prá ouvir meu apelido "Minha", sendo pronunciado com tamanho afeto. O trajeto de 40 minutos durava uma eternidade.. Mas até alcançar o outro lado, o rio me acolhia como se me ninasse, no balanço da embarcação, enquanto a saudade ia ficando cada vez menor, como as pessoas observando na beira d'água. Chegar lá, significava ser rodeada de encantamento e amor.
Hoje eu vi o dia amanhecer nesse ponto, onde meu peito marcava o compasso da chegada, naquela época, quando a Passagem era um fervilhar de pessoas, tão distante da solidão do agora. A alvorada que surgiu, lançou luzes sobre minhas memórias, da menina feliz que eu fui um dia. Da ponte que interliga esse território, ao da mulher sedenta que me tornei
Amanhecer nesse ponto,me fez recordar o poeta, que disse:"eu quero meus braços abertos, de frente prá o rio''.
E me devolveu o sopro do sentido de chegar e permanecer nestas bandas ribeirinhas. Porque hoje eu também cruzo um rio. E embora esse rio que ora atravesso seja revolto, eu também tenho encontrado amor e acolhimento a minha volta.
Obrigada ao moço gentil, que cruzou estas águas;me transportou, fotografou e cedeu a fotografia,além de aquecer o coração da menina e da mulher, abrindo este portal...
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
Há um ano atrás, eu iniciava 2022, viajando para Caldas Novas - Go. Seis meses pós avc. Completamente dependente da cadeira de rodas e das pessoas. Precisando de ajuda até para ir ao banheiro. Dormindo de fralda e com um plástico sobre o colchão. Insegura, frágil, amedontrada. Com medo de entrar até na piscina.Sendo carregada por Gabriel e Mariana(dois loucos...rs), prá todos os lugares. Um ano depois, 2023 me encontra liberta da cadeira e das fraldas. Independente no banheiro e andando de bengala. Ainda insegura e frágil. Ainda temerosa. Mas certa de que, em passos vacilantes, eu sigo mais um ano. E grata a Deus e a todos que tem trilhado esse caminho comigo, ainda que me olhando a distância (sim, há os que preferem estar assim, e tudo bem)...
...
sábado, 26 de novembro de 2022
Diário do avc - parte 1:
Eu sempre acho que tudo começou com o covid. E os próprios médicos levantaram essa possibilidade, mas não foram conclusivos .
Em meio ao pânico da pandemia, eu descobri que alguns servidores do fórum haviam sido contaminados. Como o contato entre eles e os servidores da Promotoria era frequente e soube que a Prefeitura estava testando muita gente, comecei uma batalha, para que nós fossemos testados. No dia do teste, acordei com a dor de garganta que começara na véspera. Já no LACEN, crise de ansiedade e seus sintomas conhecidos há dias: respiração ofegante, mãos suando muito, mau estar estranho. Comecei a pensar: e se eu tiver com covid? Passei a fazer um check list mental: não havia tido contato com ninguém contaminado; saí de casa para trabalhar apenas no dia anterior, depois de um mês enclausurada; usei a máscara sempre; lavei as mãos com frequência, etc., etc. Mas nos últimos dias um cansaço... Passei o dia no ritmo insano de sempre. Fazer comida, limpar a casa, cuidar para que tudo estivesse impecavelmente no lugar. A voz de Mariana em minha cabeça: mamãe, você tem toc. Conferi a posição das plantas. Na geladeira os potes todos arrumados. Pia limpa. Era final de tarde. Para um carro na porta. Marcelo atrás sorrindo largo. Reconheço o uniforme temido da vigilância sanitária em duas mocas que pedem licença e entram na sala. Eu começo a falar que não posso estar de covid. Elas sorriem sem graça e confirmam ditando instruções. Pedem meu braço e colocam nele uma pulseira amarela. Marcelo e meu filho João recebem pulseiras azuis. Elas selam nosso compromisso com o isolamento. As meninas saem e nós nos olhamos desesperados. Concordamos que eu ficaria no quarto confinada. Eu entro no quarto e tranco a porta atrás de mim, sob olhares assustados. Eu ficaria por 15 dias trancafiada naquele quarto, recebendo as refeições na porta, enquanto me segurava para não me jogar nos braços dos dois moradores daquela casa, que se colocavam a quilômetros de distância da fonte de contaminação. Soube então, que o vigilante da Promotoria também estava de covid, mas mal nos falamos na véspera, quando precisei ir até o meu local de trabalho, então de quem partiu o contágio, era uma incógnita para nós.
A moça me contou essa estória com um sorriso maroto parando nos lábios...
Um rapaz passava todos os dias em sua porta lhe prometendo viagens para a capital. Ela o ignorava. Tempos mais tarde soube que ele sempre ia a capital para tratamento de um problema mental. Mas nunca demonstrara qualquer sentimento por ele,embora distribuísse sorrisos todas as vezes em que o via, porque o achava engraçado.
Fato é que num certo dia viu o rapaz aos cochichos com o seu sobrinho de oito anos. Alguns dias mais tarde, o garoto entrou em casa agarrado a um saco de salgadinhos e um refrigerante, cabeça baixa. Ela pediu a ele: me dá um pouco? me dá um gole?
O garoto aumentou o passo, abaixou mais ainda a cabeça e disse um -eu não posso, quase sem que a voz saísse direito. Depois falou baixinho: eu não posso, porque eu vendi a Senhora. Como é o negócio, menino?
O garoto nervoso explicou, apontando o tal sujeito: Por causa que ele disse: ajeita sua tia prá mim que eu te dou um negócio. Eu disse a ele, então me dá o negócio primeiro.
O menino suspirou e mostrou então o salgadinho e o refrigerante nas mãos.
Só aí a história ficou esclarecida para a moça. Que passou a pensar sorridente, no quanto valia para aquela criança, a quem devotava tanto amor. A essa altura, já não valia mais nada, pois o garoto já acabara com o fruto da negociação.
Quando a moça me contou esse caso e me apresentou o menino, a minha curiosidade fez com que eu perguntasse a ele, porque vendera a tia. O garoto se apressou a responder que estava com fome.
Sim, meus caros, porque aa crianças não tem fome apenas da comida que lhe chega a mesa, mas de tudo aquilo que as vezes não tem acesso e sentem vontade. Como certos brinquedos, certas guloseimas. E porque não, salgadinho e refrigerante. Mesmo que para isso, tenham que vender a própria tia.

