Eu era uma estagiária muito jovem, tentando me encontrar no setor de imóveis do Banco Econômico, lá pelos idos da década de 90. Dentre os poucos funcionários do setor, Andréia tinha sobrenome da classe alta de Salvador, herdado do casamento com um jovem cuja mãe, eu via fotos frequentemente estampadas, nas colunas sociais dos jornais. Nossos clientes possuíam perfis variados e eu notava o tremor que surgia nas mãos da minha colega, quando tinha que atender particularmente aqueles cuja aparência revelava a sua condição menos abastada. Eram pessoas que tinham comprado lotes em uma área do bairro de São Cristóvão. Certo dia, Andréia me chamou num canto do corredor e me confidenciou o seu segredo. Não suportava quando lhe apertavam as mãos, ou quando não respeitavam a barreira que lhes impunha e tentavam um abraço. Olhei para as jóias que a ornamentavam (embora dissesse que usava poucas, temendo ser assaltada), para a sua maquiagem impecável e sorri. Foi então que veio a pergunta: Quanto custa uma passagem de ônibus? Eu não entendi a indagação repentina. Respondi a pergunta e ela deu um grito, em meio aos sussurros que emitia: Meu Deus! custa isso? E completa: Você acredita, que tem dia que eles reclamam porque tem que voltar aqui, para assinar alguns papéis que não ficaram prontos e eles dizem que não tem o dinheiro da passagem, ou dizem que tiveram que pegar emprestado? E antes que eu responda ela me diz: Por favor, quando chegar esse pessoal do loteamento, atenda prá mim, eu não tenho condições. Você acredita, que Dona Rosália, aquela Senhora preta e gorda, noutro dia esteve aqui e me beijou? Tive que sair correndo para o banheiro prá lavar o rosto.
Andréia não sabia mesmo quanto custava a passagem. Me dizia que às vezes ficava cansada e ia trabalhar com o motorista, porque dava muito trabalho estacionar. E também para ninguém pensar que ela era dondoca, porque mesmo trabalhando, imagine você, algumas pessoas são maldosas e dizem isso.
Tantos anos se passaram e eu continuo encontrando algumas Andréias pelo caminho... Dizem que estão perto da miséria, que conhecem, mas não querem que o cheiro impregne as suas vestes.
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