Me sinto presa nesse corpo
pós avc.
Meio paralisado.
Estagnado.
A mercê.
E em minhas memórias
só você.
Nessa cela
do sofrer...
Memórias políticas I
Das memórias de minhas andanças em campanha política com vovô Minrvino, lembro quando era preciso escrever o voto nas cédulas e os candidatos mandavam fazer umas forminhas de papelão com os números. O eleitor, mesmo analfabeto, a custa de muito treino, percorria a forminha com a caneta e aprumava o voto.
Num certo dia, eu não sei em que comunidade estávamos, mas eu era uma criança de uns nove anos e já havia aprendido como se treinava um eleitor a exercer a cidadania. Me trouxeram uma moça na casa dos trinta e poucos anos e me mandaram ensiná-la. Coloquei a forminha de papelão em cima do papel que simulava uma cédula. A moça, que tinha problemas mentais, transpirava muito. Eu segurei em suas mãos trêmulas e fui ajudando-a a perccorrer os números com a caneta. Primeiro Prefeito, depois vereador. Ela dava risinhos nervosos. Eu, didática, dizia você consegue, falta pouco. A moça ria mais ainda e suava. Eu olhei os seus riscos tortos e senti compaixão. Duas semanas depois eu soube que a moça havia sido encontrada afogada num riacho. Eu senti vergonha. E pedi perdão em silêncio por tê-la inquietado em seus últimos dias. E assim eu segurei nas mãos de tantos idosos igualmente trêmulas, envergonhados por não saberem se desvencilhar sozinhos no papel. E apesar de ajudá-los a vencer o medo, muitas vezes, era eu quem sentia vergonha, em ocupar aquele lugar, num país repleto de analfabetos e desiguais. hoje eu sinto ter aprendido essa lição tão cedo...
Um ano finda. Eu recomeço... Muito de mim já terminou. Pouco ainda é recomeço. Mas vivo o movimento do reaprender. Pós AVC, tudo é recomeço. Todo dia reaprendo. A andar. A sentar. A socializar. A existir perante o mundo. E o mundo é esse poço. Onde me afundo. E reexisto.. Um tanto de mim resiste. Outro tanto INSISTE nessa lógica. Desde o dia em que mal acordei e já era noticiada com o coágulo estampado numa máquina. Desde quando metade de mim era paralisia. Desde aquele dia eu sou confusão. Metade de mim sabe que existe. A outra metade RESISTE nesse jogo de insistência. E desde sempre nuca mais serei a mesma. Eu insisto na incerteza. Como todo mundo. Afundo nesse poço profundo. Ah, mundo! Serei feliz? Voltarei a ser eu mesma? Ninguém sabe. Eu luto com todas as armas que me restaram. As garras que desenvolvi antes de me resumir em ANTES E DEPOIS DO AVC. Em minhas memórias, estou impregnada de você. Nós nos transformamos num amontoado de memórias. Recortes que sofregamente alimentamos. Nenhum plano vingou. Mas estamos nos meninos. E eles em nós.Nosso passaporte e fortaleza. A mesa continua posta. E o sonho da rota. Desde antes. E após.
Caldas Noovas, 30 de dezembro de 2021.