sábado, 22 de outubro de 2022

 Me sinto presa nesse corpo

 pós avc.

Meio paralisado. 

Estagnado.

A mercê.


E em minhas memórias

só você.

Nessa cela

do sofrer...

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

 Em minha solitude

eu encontro você.

Mão, beijo, cheiro,

calor.

Nossa solidão foi o alarido.

Sua solitude

nos afastou...



quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Memórias políticas I 


Das memórias de minhas andanças em campanha política com vovô Minrvino, lembro quando era preciso escrever o voto nas cédulas e os candidatos mandavam fazer umas forminhas de papelão com os números. O eleitor, mesmo analfabeto, a custa de muito treino, percorria a forminha com a caneta e aprumava o voto.

Num certo dia, eu não sei em que comunidade estávamos, mas eu era uma criança de uns nove anos e já havia aprendido como se treinava um eleitor a exercer a cidadania. Me trouxeram uma moça na casa dos trinta e poucos anos e me mandaram ensiná-la. Coloquei a forminha de papelão em cima do papel que simulava uma cédula. A moça, que tinha problemas mentais, transpirava muito. Eu segurei em suas mãos trêmulas e fui ajudando-a  a perccorrer os números com a caneta. Primeiro Prefeito, depois vereador. Ela dava risinhos nervosos. Eu, didática, dizia você consegue, falta pouco. A moça ria mais ainda e suava. Eu olhei os seus riscos tortos e senti compaixão. Duas semanas depois eu soube  que a moça havia sido encontrada afogada num riacho. Eu senti vergonha. E pedi perdão em silêncio por tê-la inquietado em seus últimos dias. E assim eu segurei nas mãos de tantos idosos igualmente trêmulas, envergonhados por não saberem se desvencilhar sozinhos no papel. E apesar de ajudá-los a vencer o medo, muitas vezes, era eu quem sentia vergonha, em ocupar aquele lugar, num país repleto de analfabetos e desiguais. hoje eu sinto ter aprendido essa lição tão cedo...

quarta-feira, 23 de março de 2022

 Um ano finda. Eu recomeço... Muito de mim já terminou. Pouco ainda é recomeço. Mas vivo o movimento do reaprender. Pós AVC, tudo é recomeço. Todo dia reaprendo. A andar. A sentar. A socializar. A existir perante o mundo. E o mundo é esse poço. Onde me afundo. E reexisto.. Um tanto de mim resiste. Outro tanto INSISTE nessa lógica. Desde o dia em que mal acordei e já era noticiada com o coágulo estampado numa máquina. Desde quando metade de mim era paralisia. Desde aquele dia eu sou confusão. Metade de mim sabe que existe. A outra metade RESISTE nesse jogo de insistência. E desde sempre nuca mais serei a mesma. Eu insisto na incerteza. Como todo mundo. Afundo nesse poço profundo. Ah, mundo! Serei feliz? Voltarei a ser eu mesma? Ninguém sabe. Eu luto com todas as armas que me restaram. As garras que desenvolvi antes de me resumir em ANTES E DEPOIS DO AVC. Em minhas memórias, estou impregnada de você. Nós nos transformamos num amontoado de memórias. Recortes que sofregamente alimentamos.  Nenhum plano vingou. Mas estamos nos meninos. E eles em nós.Nosso passaporte e fortaleza. A mesa continua posta. E o sonho da rota. Desde antes. E após.


Caldas Noovas, 30 de dezembro de 2021.

domingo, 18 de julho de 2021

Fiquei alguns minutos olhando para ele, deitado em posição fetal. Nos últimos dias em que o visitei, só o via assim. Abraçado ao travesseiro, passando as mãos frágeis sobre ele, com os olhos perdidos. Parecia um bebê que acabara de chegar ao mundo. E assim eu fiquei por minutos, observando a vida se esvaindo e meu avô tentando segurá-la, com as forças minguadas que lhe restavam. Meu avô, que atravessou a minha existência como um homem enérgico, agora atravessa a minha alma, quando o vejo se agarrando a linha tênue de se manter vivo, embora tenha perdido as forças para se manter de pé. Vejo os olhos inquietos, como se perscrutasse o silêncio, será que esmiuça as memórias? será que questiona o que virá? ou será que espera, enquanto engole as palavras, que não consegue pronunciar? Ele pede um abraço e eu sinto tristeza. Depois de todas as lutas, será que no final do labirinto, o único desejo e consolo que nos resta, é um abraço?

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Quando acordar agradeça
mas não se esqueça
dos que perderam a voz
por falta de crença
dos que não encontram motivos 
para persistência
dos que só conhecem a indiferença.
Quando acordar agradeça
mas não se esqueça
das infinitas cabeças
dispostas sobre pratos vazios.
Quando acordar agradeça
mas não guarde a tola pretensão
de que esse rito lhe coloca acima
dos que já perderam a fé e a esperança.
Dos que colecionam tantos dissabores
que cada palavra positiva
naufraga
no vão infindo
das dores...

                 (Tâmara Rossene)