Ao cair da tarde
quando o céu é um quadro misto de laranja e cinza
e meu peito se abre num precipício
tudo me parece infinito...
Quando defronte para o mar
o horizonte é um par de asas
e o meu mergulho é a fuga do conflito
tudo me parece infinito...
Quando o teu braço é o meu refúgio
e nele eu sou salva
da queda no abismo
tudo me parece infinito...
Quando eu engulo paisagens que quero guardar
tristeza que quer me afogar
alegria que não quero conter
o riso, a dor, o grito,
tudo, tudo, me parece infinito...
E nessa proporção em que me vejo
andar, contemplar, sentir,
descobri que o infinito
está dentro de mim...
(Tâmara Rossene)
sexta-feira, 26 de julho de 2019
quarta-feira, 24 de julho de 2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
Uma mulher aparentemente de cinquenta e poucos anos, sentada em um banquinho a minha frente, cabeça baixa, lixando pacientemente as minhas unhas dos pés, enquanto vai narrando a sua própria trajetória. Me fala orgulhosa da família para a qual trabalhou uma vida. Os meninos que criou, sabendo contar em cores e detalhes, cada etapa que eles vivenciaram. Vai descrevendo as dores e alegrias que viveu junto a eles, ora eufórica, ora saudosa. Quando foram estudar na capital, ela também os acompanhou. Acordava cedo para preparar o café e dormia tarde, preparando o próximo dia. Nesse momento, os olhos brilham, mas depois se apagam, como num flash, quando diz: agora estão casados e criaram família. Pergunto se voltou por isso. Ela me diz um não, com veemência: - Descobri um problema de saúde e não posso mais trabalhar com esforço. Voltei porque não podia continuar fazendo trabalho pesado. Mas até o momento, não tinha percebido que a forma que ela falava do trabalho parecia tão leve! Só então me dei conta das tarefas domésticas, no lava, passa, esfrega, cozinha, de todo dia. Volto a ouvir a sua voz, quando fala: - Por isso voltei a fazer unhas, por isso deixei os meninos. Foi o jeito que achei, de pagar as contas. Quantos anos teria, aquela mulher negra, com um riso (embora fácil), meio triste? Depois ela passa a me indagar sobre os meus filhos. Me diz que filho é "benção". Conta que ajudou a criar uma sobrinha, que também a chama de mãe. Que todo mundo deveria ter um filho prá fazer companhia na velhice. Eu lhe pergunto quantos filhos teve e ela me responde, com um pensamento distante, enquanto segura a minha mão direita no ar, observando o seu trabalho com a base, que acabara de aplicar: - eu não tive, mas deveria ter tido. Não sei porque não tive. Foi nesse segundo que compreendi que ela devotara tanto amor "aos meninos" e a família de quem ela falava mais do que dela própria, que não percebeu que não teve os seus próprios filhos, porque emprestara esse tempo a eles. Fico pensando com quais medidas essa relação foi construída. Haveria reciprocidade nesse tempo e dedicação desprendidos? e a relação trabalhista? será que pode se valer dos seus direitos para amparar o seu retorno, com problemas de saúde para casa? Acredito que não. E o tempo que lhe foi roubado dos filhos que não teve? As noites colocando aquelas crianças para dormir, que não foram usufruídas com as suas; as cantigas que ensinou a elas; os aviõezinhos com as colheres de comida, o zelo com os uniformes escolares, os machucados, as birras... Fiquei divagando sobre o tempo que as vezes roubamos ao outro, de forma covarde, usando as várias formas de amar alheias. E quando o bonde já passou e o outro não puder mais retomar os ciclos, quais punições nos serão dadas? seguiremos apenas, como aqueles meninos que cresceram? o que será ela na cabeça deles? será que têm consciência dessa devoção, ou apenas uma lembrança, sem qualquer culpa pelos pesos diferenciados que se estabeleceram? sem qualquer preocupação com o tempo doado, porque talvez eles acreditem, que permitiram que ela ficasse, até quando não servia mais...
segunda-feira, 18 de março de 2019
Tem dias em que eu quero
engolir o mundo.
Meu grito
derruba muros.
Eu rasgo clarões
no escuro (de mim).
Tem dias
em que eu sou
tijolo que ergue os muros.
Meu grito é mudo.
Estou mergulhada no fundo, no fundo.
Mas um menino vem ao mundo.
Meu filho me arrasta pela mão.
A menina no meio da rua me sorri.
E esses meninos juntos,
ainda me mostram suas asas.
Nesses dias
eu sou a marreta que derruba muros.
Eu vejo um raio de luz no escuro.
Uma ponta de esperança
no futuro.
Eu me arrasto no poço profundo.
Eu subo
e fujo
do fundo
de mim...
(Tâmara Rossene)
engolir o mundo.
Meu grito
derruba muros.
Eu rasgo clarões
no escuro (de mim).
Tem dias
em que eu sou
tijolo que ergue os muros.
Meu grito é mudo.
Estou mergulhada no fundo, no fundo.
Mas um menino vem ao mundo.
Meu filho me arrasta pela mão.
A menina no meio da rua me sorri.
E esses meninos juntos,
ainda me mostram suas asas.
Nesses dias
eu sou a marreta que derruba muros.
Eu vejo um raio de luz no escuro.
Uma ponta de esperança
no futuro.
Eu me arrasto no poço profundo.
Eu subo
e fujo
do fundo
de mim...
(Tâmara Rossene)
Foto: Antônio e Bento. Os anjos de Yanna Souza retratados por ela mesma.
Sobre o Dia da Mulher...
Tudo bem se você ler essas mensagens de hoje, dizendo que “mulher é guerreira”, “mulher é delicada”, “mulher é forte” e não se reconhecer em nenhuma delas.
Tudo bem se você não se sensibilizar com as flores que lhe chegam, no plano real ou nas infinitas mensagens do whatsapp, porque você se recorda que pensa em desistir na maioria dos dias, ou porque se sente incapaz de colocar um ponto final em um relacionamento exaustivo.
Tudo bem se você lê a tudo isso, se você ouve músicas que exaltam a mulher como rainha e não sente vontade de forçar um sorriso, porque não se sente nem rainha, nem princesa, mas apenas uma mulher cansada, porque o dia precisa ser mais longo do que parece, porque há incontáveis lutas escondidas nas manhãs, tardes e noites.
Tudo bem se você está recebendo mensagens fofas, com flores e rosa estampado e não acredita em nenhuma delas, porque a sua vizinha, que lhe vê saindo de manhã cedo e voltando a noite, com filhos pequenos para criar, acha que você é pedante e lhe dirige os piores pensamentos e desejos e fala mal de você pelas costas.
Tudo bem se você se sente mal porque a sua tia, a sua prima, ou a sua melhor amiga, ignoram o seu cansaço diário e lhe desqualificam enquanto mulher, apenas porque você não esvazia a sua pia de pratos, na velocidade da luz.
Tudo bem se você se sente mal porque muitas mulheres validam o comportamento de homens que traem porque não admitem a sua pequenez, ao lado de mulheres fantásticas.
Tudo bem então, se você não acreditar em mensagens que lhe chegam pelas mãos de homens que fazem piadinhas machistas a maior parte do tempo, que exaltam a sua masculinidade e inferiorizam e maltratam as mulheres a sua volta e que hoje, resolveram mascarar os fatos.
Tudo bem se também não se sentem confortáveis em receber versinhos e musiquinhas exaltando o dia, pelas mãos de mulheres, as vezes até muito próximas, que passam a maior parte do tempo julgando as outras.
Tudo bem se você apenas desejar respeito e senso de justiça, sem flores, perfumes ou música. Se você desejar apenas ficar em paz, com as suas lutas e fraquezas...
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Você acorda...
O mesmo tom no céu.
O rio, o mesmo som,
corre ao léu.
O cachorro na rua,
late da mesma forma.
A vizinha lhe olha,
fingindo que a ignora.
Você acorda e o
portão ao lado
range do mesmo jeito.
O idoso da esquina
espreguiça no mesmo
horário
sentado no leito.
Você está presa
aos mesmos ciclos
como os ponteiros do
relógio
como as lembranças
a se reproduzir.
Você acorda
e nada muda.
Tudo é ir e vir.
(Tâmara Rossene)
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