quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Eu sou caminho e renúncia.
Por onde sigo
em qualquer busca
há sempre um abrir mão 
para prosseguir.
Há sempre um deixar ir.
E vivo negociando
comigo mesma.
Mas há uma insistência 
em manter certas crenças
certos sonhos
e incertezas...



sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Você acorda...
O mesmo tom no céu.
O rio, o mesmo som, corre ao léu.
O cachorro na rua, late da mesma forma.
A vizinha lhe olha, fingindo que a ignora.
Você acorda e o portão ao lado
range do mesmo jeito.
O idoso da esquina
espreguiça no mesmo horário
sentado no leito.
Você está presa aos mesmos ciclos
como os ponteiros do relógio
como as lembranças a se reproduzir.
Você acorda
e nada muda.
Tudo é ir e vir. 
                    
 (Tâmara Rossene)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


O ano novo é como uma mulher grávida, 
intercalando sonhos e temores
enquanto aguarda o rebento
na passagem do tempo
que sabe que não lhe pertence.
É como essa mulher cheia
de sentimentos controversos
mas que lá dentro espera
que "quase" tudo dê certo.
E assim vai bailando
no movimento dos ciclos
enquanto aprende a ser fim
enquanto aprende a ser início...


(Grávida de Mariana, em 1996.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Tem dias que eram pra ser celebrados, 
mas há uma trava que impede. 
E então se tornam dias carregados. 
Quando deveriam ser leves. 
São dias em que a mágoa impera 
e onde nada é breve. 
E embora tudo devesse flutuar
tudo, tudo é pesar...
               
                   (Tâmara Rossene)

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Todos os dias eu a vejo, as primeiras horas da manhã, arrastando sofregamente "o menino". O menino, é um homem de cerca de 30 anos, com problemas mentais, que se comporta como se não tivesse saído da primeira infância. Ela, já passou dos setenta e cinco. Tão magrinha, como se fosse partir ao meio. Ele, cheio de vigor, sem ter aprendido a controlar a própria força, enérgico, um garoto em explosão. Ela o arrasta pela rua comprida, no que parece ser uma tentativa de fazê-lo se exercitar. Ele para ao menor ruído de uma folha que cai, de um cachorro que passa, do vento que sussurra em seus ouvidos. Ela lhe chama carinhosamente para que siga. Ele para, não quer ir, volta atrás. Ela tão frágil, diz: vem... Uma voz fraca, de mãe, que já mingou as suas forças. Já perdeu todas as noites de vigília, todas as manhãs e tardes, nesse exercício que não termina, porque o filho não cresceu, nem crescerá... Ela só tem a ele. Ele só tem a ela. E eles estão presos nesse ciclo. Mas ela já está findando. E ele segue, menino saltitante, curioso, para além do fim. Vendo-a assim, me sinto tão covarde diante de conflitos que me parecem agora, banais. Observando-a, passo a achar tanta gente que me parecia gigante, minúscula. E cá estou eu , tentando imaginar quem os prendeu nesse ciclo perverso. Tentando pensar, em quais teorias irei me agarrar, para tentar arrumar uma explicação que sirva apenas para acalmar o meu próprio espírito. Mas no fundo, estou apenas tentando afastar um pensamento que me acomete, de quem o arrastará assim pelas ruas, se ela se for antes...



quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Você consome porque sente que precisa, ou porque uma voz, lá fora, lhe grita?
Quando compra, a quem você atende, a necessidades supérfluas, urgentes, ou ao temor de parecer que está numa lógica diferente?
A lógica é sua ou é subordinada a um chamado maior?
Você já se perguntou porque está comprando, para atender a quais anseios, para tapar a quais vazios, ou isso não importa?
Por quanto tempo dura a sua felicidade nas aquisições que realiza?
Você compra por utilidade?
Quem atribui esses valores?
O outro vale pelo que compra ou isso não tem importância?
Comprar envolve um sentimento banal ou profundo?
Quem é você, na lógica do consumo?