Depois da aula da última sexta, fiquei divagando sobre as marcas da violência que carregamos. Não as marcas físicas, mas as que se inscrevem em nosso ser e respondem por determinados comportamentos que assumimos, muitas vezes de forma inconsciente. Uma palavra dita por alguém próximo, os discursos ditados pelas instituições das quais fazemos parte e a obrigatoriedade de reproduzi-los, os relacionamentos abusivos, os moldes da família, da escola, os julgamento indevidos, os padrões pré definidos. Eu consigo descrever algumas ocorridas em tempos remotos, de forma muito clara. E as vezes identifico reações desnecessárias no presente, a menos que eu faça conexões com marcas de outras épocas. Umas que trouxeram consequências danosas, outras mais superficiais. Outras ainda que já são cicatrizes, mas que em determinados momentos provocam dor... Identificar as marcas causadas no outro é um exercício muito mais complexo e talvez mais doloroso. Porque aí temos que nos admitir falhos, tolos, entregues a nossa pequenez e as vezes cruéis. Mas o cotidiano, a lei da sobrevivência, o bom senso (será?), muito a nossa volta se esforça para negar essas impressões. Talvez seja necessário tomar distância de si para enxergá-las. Mas... quanto de nós quer promover esse encontro?
domingo, 30 de agosto de 2015
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sábado, 1 de agosto de 2015
Eu ouvia que de agosto
colhia-se apenas desgosto
e o grito dos loucos.
Mas esse vento que sopra
pode ser a boa nova...
Agosto
traga feliz o meu rosto
na porta da nossa casa na Avenida.
Junte de novo
o que agora é partida.
Leve embora esse gosto
de despedida.
E nos faça flutuar
por entre as folhas que correm nas ruas.
Ó, agosto!
sopre prá longe
a realidade crua...
P.S. A foto, ainda que de baixa qualidade, é nossa (minha mãe, meu pai e Celo), na frente da casa na J.K., vendo o ciclismo passar, num agosto...
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Com o tempo eu fui aprendendo a silenciar
a me calar nas mudanças
a não relatar de minh'alma
as inconstâncias.
Com o tempo eu fui aprendendo a aparentar essa calma
para não demonstrar o barulho
das emoções.
Com o tempo eu parei de contar aos quatro cantos
os meus planos para o futuro
e a agonia das minhas sensações.
Assim me livrei dos maus agouros
e do falso propagar.
Dos burburinhos,
do fervilhar...
Dos burburinhos,
do fervilhar...
Com o tempo
foi esse calar dos movimentos
eu aprendi
a ouvir o silêncio...
(Tâmara Rossene)
(Tâmara Rossene)
P.S. Na foto, a serra da Barriguda...
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Não sei se sou eu
ou a lua que muda
num dia estou contida
no outro
desnuda.
Não sei se sou eu
ou a forma como sopra o vento
num dia sou puro êxtase
no outro
tormento.
Não sei se sou eu
ou a tábua das marés
num dia sou...
quem sou?
No outro
Mulher.
Não sei se sou eu
As estações
os movimentos
ou se é o que primeiro me alcança
sou eu nessa eterna inconstância...
sou eu nessa eterna inconstância...
(Tâmara Rossene)
P.S. Na foto, um momento de mudança, Belo Horizonte, 2001.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Entro no ônibus segurando a garotinha pela mão, bolsa de um lado, sacola do outro, me equilibrando e protegendo-a dos solavancos do veículo. Giro a catraca, com um cuidado extremo, para não apertá-la. Confiro o troco do cobrador e me atiro ao primeiro lugar vazio, sentando a menininha ao meu colo. Chamo-a de princesa, ajeito o vestido azul, com uma pala branca na gola e flores bordadas. Fico admirando-a e arrumando os cachos que havia feito há pouco em seu cabelo, driblando a sua impaciência. Percebo então que a mulher ao lado me olha sem parar. Imagino que seja a presença da criança sentada em meu colo. Falo então para ela: Diga oi para a moça. Ela pronuncia um oi tímido. Eu me encanto com o seu jeito. A tal moça não sorri. Na verdade, uma Senhora aparentando uns 40 anos. A garota que agora me abraça, tem dois anos. Olhos vivos, nariz afilado, boca carnuda e tez morena. A minha filha me olha nos olhos e diz: te amo, mamãe! Transbordo de alegria e digo que a amo também. A mulher agora não tira os olhos de nós duas. Mas não sorri. Avalia. Perscruta dos meus sapatos ao meu cabelo e depois faz o mesmo com a garota. Fico incomodada, porque ela não sorri, não se dirige a mim, nem esboça qualquer reação que me faça compreendê-la. Por uns dez minutos, no trajeto que o ônibus percorre, dou gargalhadas, sacudindo a pequena agora agarrada ao meu peito. Mas aqueles olhos estão lá e eu já começo a medir os meus gestos, tentando vislumbrar alguma reação em seu rosto. Uma mulher branca, de cabelos lisos e negros, descendo até os ombros, usando um longo vestido verde e uma pequena bolsa que se desprende de um dos seus braços. Me parece uma pessoa normal, como as que encontro no meu trajeto, todos os dias. Desço os olhos para a minha vestimenta, para saber se há algo de errado em meu corpo, mas não encontro nenhum traço de anormalidade. Faço então um esforço para me lembrar se a conheço, mas me ocorre que a próxima parada é a minha. Quando me levanto então e seguro a pequena garotinha pelas mãos, ela me fita e pergunta: Ela se parece com o pai, não é? Por um instante, o mistério perde o seu encanto! Em milésimos de segundos, mato a charada, balbuciando em pensamento: a minha cor e a cor da garota, essa era a inquietação e o julgamento da minha algoz. Volto a mulher e pergunto, enquanto o motorista vai reduzindo a velocidade: O que? Ela refaz a pergunta: O pai é moreno, não é? Penso em responder sarcasticamente que é alemão. Me viro para ela e respondo: É negro. Ela se cala e o ônibus silencia. Eu desço os degraus com a mãozinha da minha filha apertada entre a minha. Vou caminhando devagar e sinto aquele olhar me acompanhar, por um bom tempo. Parece que vai depositando sobre meus ombros, todas as palavras que não teve coragem de pronunciar...
sábado, 13 de junho de 2015
12 de junho
Um dia apenas, não comporia nem uma linha de um poema...
Eu rasgaria essa data do calendário
e lançaria fora o gesto perdulário,
do presente que quer falar por si só...
Eu prefiro todo dia, o desatar dos nossos nós.
A sua pressa e a minha melancolia.
O desenrolar das agonias.
O que cede um tanto de si,
prá colher no outro,
pequenas alegrias...
(Tâmara Rossene)
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