quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ledo engano, cinco escolas de samba do Rio de Janeiro levaram para a Avenida, temas relacionados a cultura nordestina. E eu de cá, longe da muvuca carnavalesca, fiquei a refletir com meus botões...No curto espaço de tempo em que estive em Belo Horizonte provei um tanto do mal que sofrem nordestinos entre os povos lá do sudeste. Até uma manobra errada feita por um taxista no trânsito, foi "carinhosamente" apelidada de "baianada". Deparei-me com uma prática, por vezes acirrada, de apontar o sul e o sudeste como berço de raças superiores, em detrimento dos inferiorizados nordestinos, que estiveram e estão nas engrenagens que movem as cidades desses deuses. Moiçolas e rapazes viajam léguas e pagam caro prá se acotovelar entre as cordas dos blocos, na grande folia momesca, numa festa em que baiano trabalha duro prá sulista e turista se divertir! Uma Sapucaí inteira aos nossos pés, rendida aos ditames da cultura popular nordestina. No entanto, apenas alegorias, meus caros, cá fora, a realidade é bem divergente dessa que se mostra, nessa alegria fugaz...

Carnaval
Sustentando a corda
prá nobreza passar
se arrastam os cordeiros!
Essa é a grande festa popular da Bahia!
À frente a plebe
tomando porrada
prá nata se divertir ilesa.
Brindamos a orgia
ao carnaval
a alegria eventual...
Enquanto do outro lado
da rua
a vida
nua e crua
se desenrola
sem confetes
no pequeno catador de latas.

(Tâmara Rossene)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nunca senti tanto calor em pleno dezembro... Se bem que de um tempo para cá, dezembro vem se modificando... o Natal, tão representativo prá mim, vem se transformando numa festa por vezes tão hipócrita! Essa obrigação de presentear me parece tão desigual! De mesa farta em contraponto a mesa em falta... Nessa época eu gostava mesmo era dos Ternos de Reis chegando na porta das casas, em festa. As portas se abriam e junto a festa dos reiseiros, o dono da casa providenciava o que tinha a mão para dar de comer e de beber ao grupo. Depois eles foram ficando a cada dia mais marginalizados. Reizeiro para alguns é sinônimo de gente embriagada. A falta de incentivo aos grupos junto com essa visão deturpada, porque por detrás dos Santos Reis tem um cunho religioso, foi empurrando-os para as periferias, cada vez mais. As Lapinhas também foram virando poeira do tempo. A última que vi foi no ano passado, na casa de Dona Nazinha, ali no cais. Ontem passei por lá e vi a casa toda fechada, sem qualquer sinal dum tempo que gosto de recordar...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estávamos no finalzinho da década de oitenta e de volta a Ibotirama, ladeados pelos sonhos de meus pais, de uma nova vida, pós formação superior, nos braços da terra natal... Naquela época a adolescência batia a minha porta. Dentre os novos amigos desse novo mundo, "o goiano", apesar de um pouco mais velho, virou presença constante em nossa casa. De olhos verdes, cabelos caindo sobre a testa e traços afiladíssimos, além de um verdadeiro galã, era de uma gentileza extrema. Tão sensível, que por vezes tornava-se incompreendido. Tocava um violão meio desafinado, cantava meio desafinado, mas era dono de composições tão puras, que esse desafinar tinha um certo encantamento. Me trazia uma serenidade sem tamanho. Dono de uma caligrafia linda, me deixava absolutamente surpresa e lisonjeada, quando elogiava a minha letra. Depois de um certo tempo, foi cursar Técnico Agrícola em Catu. Ainda assim, me trazia notícias nas férias. Lembro-me de uma moça chamada "Linda Rosa" por quem se apaixonara e que, por conta dela, me fazia ficar imóvel por horas, ouvindo suas queixas sobre a interferência da família no namoro. Depois a vida nos lançou em direções opostas, mas não o relegou ao esquecimento. Volta e meia me perguntava por onde andaria José Carlos Vilaverde. Ontem soube que faleceu há pouco tempo e que estava logo ali no Morpará. Soube também que continuou compondo e cantando e que a vida lhe trouxe muitas amarguras. Mas que deixou composições maravilhosas para os que estavam próximos. Não constituiu família e morreu sozinho, sendo encontrado apenas três dias depois. Tenho quase certeza, que o peso desse mundo deve ter ficado insuportável para os seus ombros tão leves...
Abaixo, um poeminha meu, porque foi inquieto como eu, apenas sabia disfarçar melhor...

Dentro de mim
um poço reina
profundo...
As agruras que lanço
sem dó
as inquietudes
meu olhar sobre o mundo.
Tem dias que lanço a corda
e sem medo desço.
Afogo minhas angústias
fujo dos meus desejos.
Tem dias que cerro a tampa
e na superfície renasço.
Poço de mim
fuga com as quais
sobrevivo nos percalços.

(Tâmara Rossene)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Essa chuva caindo assim fininha, me parecem lágrimas, por D. Angélica que se foi ontem...Pra minha mãe, Dinda Angélica. Aliás, para muitos da família que se acostumaram a chamá-la dessa forma...Há mais de setenta anos Santo Antonio se alegrava com suas novenas, trezenas...Desde muito menina vovó Anália me conduzia nas férias, até a rua Primeiro de Janeiro, a me deliciar com com seus quitutes, seus cantos e suas rezas. Agora talvez, tenha ido fazer coro com minha avó... Apesar de seus noventa e poucos anos, ainda era moça, pois não se deu aos desfrutes mundanos. Então, além de rezadeira, também era anjo... E tinha uma memória que era um espetáculo! Deixou um "q" de saudade e também de perda em nossas tradições que já andam tão esquecidas... Mas Santo Antonio certamente a estará esperando para tomá-la nas mãos...

domingo, 20 de novembro de 2011


Na última sexta, estive observando a caatinga em seu movimento de renascer, a cada ano... A vegetação, que durante a maior parte do tempo parece uma floresta morta, com seus gravetos frágeis e nus, se transformou em mata exuberante! Eu sou encantada com essa capacidade. Se me perguntassem hoje, qual habilidade eu gostaria de ter, a minha resposta seria: eu queria ser caatinga... Abaixo, posto um poema que deveria estar aqui no aniversário de Paloma, no finalzinho de outubro. Pela capacidade que ela tem de transformar as fragilidades em conquistas. Acima, uma foto tirada por Mariana, da paisagem transformada...

Olhos de Paloma

Profundos e advinhos.

Tão Negros

Que me perco e me intimido.

Ousei mentir pra você

Não consegui fixar-me em teus olhos.

Estou nua

Exposta a esses faróis inquisidores.

Olhos de Capitu

A esconder verdades, mentiras

Certo, errado,

Nesse poço de dimensões profundas

E intenso brilho.

Cantei pra conter o teu choro

Quando você nasceu

Nunca me esquecerei

Dessas duas faíscas luminosas

Que me olharam.

Teu olhar é lindo

É intrigante!

Se eu tivesse olhos assim,

Ganharia o mundo

E o colocaria inteiro a meus pés

Totalmente hipnotizado.

(Tâmara Rossene)

domingo, 30 de outubro de 2011


Certa vez uma tia materna estava morando em São Paulo. Eu tinha por volta de quatro, cinco anos. Menina da beira do Velho Chico, sonhava ganhar uma daquelas bonecas que tinham quase o nosso tamanho. Ingenuamente mandava recados a Papai Noel, mas parece que ele sempre tinha outro planos prá mim. Voltando a tia de São Paulo, ela era aquela época, a minha esperança. Soubemos que ela chegaria no Natal e que viria com muitos embrulhos coloridos, para mostrar a família que prosperara. Não sei como começaram a me encher de sonhos e expectativas. Mas a tal boneca parecia cada dia mais próxima, da data que ela anunciara chegar, através de carta. Quando a vi, expressei uma saudade maior do que sentira, sentindo o coração bater forte, ao imaginar receber o presente que ocupava minhas noites e dias, em devaneios. Quando chegou o momento da entrega das "lembranças", como ela mesma intitulara, recebi um embrulho imenso... Olhei de soslaio para outra tia de pouca idade como eu e para minha irmã, vitoriosa. Esperei que elas abrissem os embrulhos primeiro; um jogo de mantimentos num, um jogo de pratinhos noutro. Pensei que eu sairia daquela sala com o melhor presente. Começo a desenrolar calmamente o embrulho sem tamanho, perfeito para abrigar meu objeto de desejo. Não acredito no que vejo: um jogo de panelinhas e um de pratinhos coloridos. Olho decepcionada e digo um obrigada quase inaudível. Mas contei essa história para dizer que durante o tempo em que venho existindo, já ganhei muitas vezes panelinhas e pratinhos, em detrimento de sonhos maiores, se é que me entendem. E todas as vezes que crio maiores expectativas, revivo o trauma infantil e fico esperando o pacote se desenrolar... Portanto, como comecei escrevendo pensando em meus coleguinhas de labuta, não fiquem com esses olhos de quem já imagina as pequeninas panelas se mostrarem sob o papel celofane...rsrs... afinal, há sempre um ganho e sempre se pode fazer bom uso do que se ganha...rsrs...e bom que temos uns aos outros para amargar a decepção do presente...

P.S. À vocês, Irlan e Márcia, pelo convívio de todos os dias... Aproveitei e postei uma foto minha (antiga) com meu irmão caçula, porque dentre nós sempre foi o mais sortudo com os presentes...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tanto tempo longe daqui...a correria é sempre a culpada, como se na verdade não fosse eu mesma a me deixar aprisionar... Tanto pensei em escrever nesse espaço de tempo. A cada dia, uma nova desculpa, até que as idéias acabam perdendo a cor e a vivacidade e um novo dia aparece, com suas repetições. Nesse tempo, o prenúncio de chuva me trouxe um sabor de novo. Afinal, as folhas voltaram a nascer nos galhos tortos e secos desse sertão. Minhas crias reclamaram atenção. Estive em Salvador e descobri que estamos cada vez mais distantes. Cada vez mais incompatíveis. Aliás, muitas coisas a minha volta tem se mostrado incompatíveis. E aos poucos, ando arejando os meus passos... Num dia desses, escrevi num pedaço de papel (tanto tempo sem utilizar o papel), esse texto que reproduzo abaixo. Espero inaugurar com ele, uma frequência mais constante a esse espaço...

Cá estou eu de novo, fincando um pé no presente e outro no passado, sempre indo e vindo, nesses alinhavos que me acometem os dias... Lembrei-me agora que andava apenas de calcinha até os 07, 08 anos, no meio da rua, quando morávamos na Federação, em Salvador. Algumas meninas da minha idade, zombavam das minhas "vestes". Mas era tão natural e eu me sentia tão segura apenas com a companhia dos desenhinhos infantis e dos babadinhos que me enfeitavam a cintura prá baixo, que pouco me importava com os comentários de minhas companheiras, abotoadas e acinturadas. Hoje se vejo uma menina com a mesma idade utilizando os mesmos trajes que me acompanhavam aquela época, já me preocupo com o que a ronda. Um novo mundo tão liberado esse que conquistamos, que coloca em risco e profana até o sagrado... Quanto sangue derramamos por um novo mundo, mas a maioria dos que aqui estão, nunca entenderão porque lutaram os que se foram... Penso nisso em instantes, tudo porque uma menininha passa saltitante em frente ao carro apenas de calcinha amarela. Lembro-me então dessa liberdade experimentada por mim. Vou divagando até me dar conta de que acabo de chegar ao Pólo da Universidade Aberta, em Ibotiraminha. Me deparo com o corredor e algumas salas repletas. Alunos discutindo trabalhos, dialogando, refletindo... É claro que queríamos a proximidade do mundo acadêmico, o calor do que se faz presente através do físico. Mas não há como negar o que existe. Nem há também como nos acomodar com o que há. Achei linda essa visão de pessoas de várias idades, ainda que por vias virtuais, estarem ali naquele momento, correndo pelo conhecimento, nessa Ibotirama que as vezes, me trás tantas interrogações... Alguém fala de Chauí ao meu lado, um outro resolve uma sentença matemática, outros tecem comentários que versam sobre ética, até que alguém me chama pelo nome. A menininha volta a correr dentro de mim, em trajes pormenores. Será um indício de que posso voltar a ter esperança no novo mundo? Ou será que a chuva, miragem de todos os dias neste deserto por onde ando, anda amolecendo esse meu ser tão árido? de toda sorte, um pouco de água a quem tem sede, trás sempre uma sensação de saciedade imediata e um desejo por mais...
Abaixo, uma poesia, a Chuva, por meu pai...

Bendita chuva

De águas cristalinas

Redenção divina

Da natureza bela

Esperança do lavrador sofrido

Vida plena dos seres que respiram

Em tuas gotas benfazejas

Mantém a vida com vigor,

Alegria

E abundância

Formando rios permanentes

Ou temporários,

Deixa em tudo fartura

E muita crença

Chuva de prata

Seja para nós

Eterna!...

(Orlando Ribeiro de Andrade)