quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020



Os cremes.
As cintas.
As promessas.
Reduzir e silenciar o corpo
para caber na métrica
da estética.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Era um período qualquer da década de 80. O final de ano parecia estranho. A minha avó havia infartado meses antes e faria logo após as festas, a cirurgia de ponte de safena. Estávamos todos em Salvador, eu tinha lá pelos doze anos e em meio a agonia, a minha mãe não teve tempo ou clima para providenciar a tal roupa branca do ritual da passagem de mais um ciclo. Por minha própria conta, eu fui até uma costureira perto de casa e com o meu vestido da primeira comunhão na mão e me sentindo a própria estilista, saí com o figurino pronto. Quando partimos para saudar o novo ano, junto a minha avó, parece que ninguém reparou na minha vestimenta. Mas para arrematar, eu passei a mão em umas flores plásticas amarelas, em um jarro sobre a mesa e prendi com um grampo, um ramalhete no meu cabelo. Todo mundo tenso e preocupado nos abraços de feliz ano novo e eu me sentindo fantástica! Naquele final de mais uma estação, fui eu por mim mesma. Não criei expectativas com o estado de saúde da minha avó, apenas aproveitei cada segundo ao seu lado. Não escolhi a roupa a dedo; não esperei o cuidado e a paparicação de sempre; não criei expectativas com a festa; sequer expressei os meus calundus costumeiros. Mas me senti cheia de poder, aos doze anos, por ter contado comigo mesma em meio as circunstâncias. O ano passado foi repleto de tribulações e parecia interminável. Ontem eu troquei de roupa três vezes, porque não houve tempo de escolher o figurino de mais um ritual da virada (a gente se diz desapegada, mas de repente se importa com cada bobagem!). Então eu me lembrei da menina de 12 anos e saí confiante, de que neste ano que se foi, em meio ao caos, eu pude contar comigo mesma, como naquela noite. Eu não coloquei um ramalhete no cabelo, mas me senti fantástica! Agora estou como em todo ano, de frente para o mar aberto (é assim que eu me sinto) de 2020. Pensando em como eu aprendi a reduzir as expectativas, o que não significa deixar de tê-las. O mar está lá, em toda a sua amplitude, mas eu aprendi a me jogar nas águas, sem esquecer de ser terra firme...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Era começo de dezembro, janeiro se aproximava e traria nossa filha, quando estivesse findando. Nós éramos jovens e o futuro era incerto. Marcelo correndo de um lado para outro, dando aulas avulsas, o contrato do estágio no Colégio Luís Viana terminando, pensando em como aliviaria ter um emprego formal. Num desses dias de desânimo e esperança, entregando currículos numa Salvador com milhares de desempregados, com oportunidades ainda mais reduzidas para um jovem universitário, negro; uma de suas tias, meio tia, meio mãe, tia Loura, perguntou porque ele não segurava no andor de Santa Bárbara, na festa que aconteceria dali a dois dias. A Santa, certamente se compadeceria dele e ajudaria. A tia, a avó e outros parentes moravam justamente no Conjunto Santa Bárbara, em Brotas. E a festa seria pelas ruas de acesso aos prédios, como em todos os anos. Meio desanimado, ele deu dinheiro para alguns pacotes de velas e no dia e hora marcados, segurava o andor, pensando em seu pedido. Cansado e inseguro, olhou para os olhos da Santa, para o vestido vermelho da imagem, rodeado de flores e acertou o passo com o de homens e Senhorinhas, entre agradecimentos e súplicas. Voltou ansioso e preocupado para mais uma maratona de aulas de reforço de matemática, mais tarde, a sala de aula também lhe aguardava. Dois dias depois, já havia deixado adormecido o pedido, para não gerar expectativas maiores, quando uma outra tia lhe telefona e diz: Marcelo, uma amiga me ofereceu uma oportunidade de emprego e eu disse que preferia lhe indicar, porque a sua filha está para nascer. Ele parou ouvindo, coração acelerando. Ela prosseguiu: é na Telebahia, é um contrato de três meses apenas, mas, quem sabe... você deve ir amanhã e procurá-la no quarto andar, no Itaigara. Meio assustado e temendo gerar mais uma expectativa frustrada, respirou profundamente. Depois ouviu tia Mana completar: Procure por Bárbara. Naquele momento, ele se lembrou do andor, das velas, da peregrinação dos currículos, das descrenças, enquanto o nome Bárbara ecoava, feito trovão... O contrato de três meses se transformou em sete anos, em outras funções, em desafios vencidos.
Vinte e três anos depois, ainda nos lembramos, como se fosse ontem. São caminhos que o sagrado percorre para desafiar a nossa fé. Viva Santa Bárbara!

quarta-feira, 30 de outubro de 2019


Eu me sentia velha aos vinte e cinco anos. E à partir daí, eu passei a acreditar que para muita coisa não haveria mais tempo, ou não era mais o tempo... Talvez tenha sido, porque eu fui acontecendo muito cedo... A formatura, o casamento, a filha, o emprego. Depois, as desilusões, as golpeadas, as estradas. Tropeçar me fez querer levantar e reconstruir. Então eu tive que modificar essa minha concepção do tempo e reinventar essa lógica, que me fez acreditar que aos trinta já não dava mais para construir muito. Só então consegui compreender que eu era parte de uma sistemática. Eu fui moldada para ser um pedaço desse universo do descartável. Estar fora desse tempo era não existir. Então eu decidi sair desse cronômetro. Por onde eu sigo, enquanto o tempo não finda, eu existo...

domingo, 20 de outubro de 2019

Da infância a vida adulta, eu atravessei os anos ouvindo os dedos do meu avô martelando as teclas da máquina de escrever. Me lembro de uma cena, em que a minha bisavó, ao final da vida, lá pelas dez horas da noite, gritava do quarto ao lado do escritório: Minervino, para de trabalhar, que trabalho só acaba a gente! Depois tudo acaba... Agora eu vejo a máquina assim,silenciosa, sobre uma peça da sala, sem papel, sem fita, sem o barulho das teclas produzindo petições, histórias, conflitos, gente reclamando pedaços de terra, casais negando a vida em comum, filhos apontando direitos... 
Eu a vejo assim, vazia, ao mesmo tempo em que observo o meu avô dormindo tranquilamente, numa manhã de domingo, quase sem nenhum barulho. E me ocorre que um dia ele também será esse silêncio. Numa tentativa desesperada de trazê-la a vida, eu lanço os meus dedos sobre as teclas. 
Em vão...