segunda-feira, 7 de outubro de 2019
domingo, 15 de setembro de 2019
Sempre que alguém abria o álbum das fotos do nascimento de Mariana, fazia algum comentário sobre essa imagem. Por detrás de todos os floreios, dos bordados e das cores suaves do enxoval, dos desenhos da decoração, das musiquinhas tranquilas e das lembrancinhas de agradecimentos pelas visitas, essa é a minha imagem real da maternidade. A fisionomia exausta pelas horas em claro nas noites de adaptação da minha filha, em sua incursão nesta vida. O cansaço pelo tempo da amamentação, no seio repleto de rachaduras. Sim, eu estava feliz. E os olhos dela, me atingiam profundamente, como a visão mais fantástica desse mundo. Mas eu tentava me adaptar as dores da maternidade e eu precisava de um silêncio que ás vezes eu não tinha. Eram comentários me atingindo de todos os lados: - Não pegue assim; não dê mama dessa forma; não faça isso!; porque você escolheu aquilo? cuidado! ou: nossa, como você emagreceu!; a sua barriga ainda está deste tamanho? por que você fica de camisola? Eram visitas que me atropelavam com perguntas invasivas e impossíveis de serem respondidas. Eram muitas vozes sugerindo, censurando, falando... Mas ao fundo, havia a minha mãe. Ah, se todo mundo soubesse, que nesses momentos precisamos de uma mãe e de silêncio, mais do que tudo! E de solidão para compreender que a maternidade dói. E que isso não está relacionado com falta de amor. Ao contrário, isso tudo é forjado com uma tempestade de sentimentos. Nestes dias, é preciso deixar o descanso fazer morada. Porque há uma mulher cambaleando em seus primeiros passos entre amor, dor, medo e incertezas. Porque ao mesmo tempo em que nasce uma criança, uma mãe está se formando, fora da segurança do útero...
domingo, 8 de setembro de 2019
Lá pelos idos de 2001, recebi um convite da empresa em que eu trabalhava para ser transferida de Salvador, para Belo Horizonte. Em casa, estávamos começando a vida, havíamos acabado de financiar um imóvel e a minha filha vivia a graça dos seus três anos e meio. A promoção traria um gás a minha vida profissional, a grana era razoável e fizemos milhões de planos. A estratégia era: eu vou primeiro, ela fica com você; quando terminar o ano letivo ela vai comigo, depois você vai também (embora ele estivesse empregado) e viveríamos felizes para sempre...
Mas as coisas não funcionaram dessa forma. Em nossas previsões, não contamos com o peso da distância no cotidiano exaustivo das metrópoles, em que cada um de nós vivíamos. Não conhecíamos profundamente os nossos sentimentos, nem imaginávamos como se daria a interferência do mundo a nossa volta. Hoje enxergo que se a promoção tivesse sido destinada a "ele", o "chefe da família" o "homem" da casa, tenho certeza que o curso da história seria outro. Entre as dores e as agonias de estarmos longe um do outro, havia o ego masculino nos rondando e dedos em riste apontando para mim. Eu ouvia cochichos de vizinhas de quem eu mal ouvia um bom dia, dizendo que não abandonariam nem a filha, nem o marido, por causa de um emprego. Eu ouvia pessoas próximas, que sabiam o porquê das nossas decisões, com questionamentos similares. Eu ouvia a distância, de homens e mulheres, opiniões que me apontavam como uma mãe e uma esposa questionáveis. Mas eu sei, que se o meu companheiro tivesse sido promovido, seria um homem competente, se atirando a uma oportunidade. Essa pressão me levou de volta e trouxe consequências e lições para nós dois. Isso me trouxe a necessidade de buscar impulsionar mulheres que eu encontro pelo caminho e que precisam partir ou ficar, em vôos que o mundo reconhece como pertencentes ao mundo masculino. Me fez rever as minhas próprias lutas e estabelecer os preços que não quero pagar e as escolhas das quais não devo abrir mão. E me faz questionar aqui e ali, essa sororidade, de que tanto se tem falado, mas que é ausente no peito de tantas mulheres, quando se aproximam das fragilidades de outras...
Mas as coisas não funcionaram dessa forma. Em nossas previsões, não contamos com o peso da distância no cotidiano exaustivo das metrópoles, em que cada um de nós vivíamos. Não conhecíamos profundamente os nossos sentimentos, nem imaginávamos como se daria a interferência do mundo a nossa volta. Hoje enxergo que se a promoção tivesse sido destinada a "ele", o "chefe da família" o "homem" da casa, tenho certeza que o curso da história seria outro. Entre as dores e as agonias de estarmos longe um do outro, havia o ego masculino nos rondando e dedos em riste apontando para mim. Eu ouvia cochichos de vizinhas de quem eu mal ouvia um bom dia, dizendo que não abandonariam nem a filha, nem o marido, por causa de um emprego. Eu ouvia pessoas próximas, que sabiam o porquê das nossas decisões, com questionamentos similares. Eu ouvia a distância, de homens e mulheres, opiniões que me apontavam como uma mãe e uma esposa questionáveis. Mas eu sei, que se o meu companheiro tivesse sido promovido, seria um homem competente, se atirando a uma oportunidade. Essa pressão me levou de volta e trouxe consequências e lições para nós dois. Isso me trouxe a necessidade de buscar impulsionar mulheres que eu encontro pelo caminho e que precisam partir ou ficar, em vôos que o mundo reconhece como pertencentes ao mundo masculino. Me fez rever as minhas próprias lutas e estabelecer os preços que não quero pagar e as escolhas das quais não devo abrir mão. E me faz questionar aqui e ali, essa sororidade, de que tanto se tem falado, mas que é ausente no peito de tantas mulheres, quando se aproximam das fragilidades de outras...
P.S. Na foto, uma recordação de Ouro Preto, agarrada a Mariana, quando Belo Horizonte era a nossa morada.
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Ao cair da tarde
quando o céu é um quadro misto de laranja e cinza
e meu peito se abre num precipício
tudo me parece infinito...
Quando defronte para o mar
o horizonte é um par de asas
e o meu mergulho é a fuga do conflito
tudo me parece infinito...
Quando o teu braço é o meu refúgio
e nele eu sou salva
da queda no abismo
tudo me parece infinito...
Quando eu engulo paisagens que quero guardar
tristeza que quer me afogar
alegria que não quero conter
o riso, a dor, o grito,
tudo, tudo, me parece infinito...
E nessa proporção em que me vejo
andar, contemplar, sentir,
descobri que o infinito
está dentro de mim...
(Tâmara Rossene)
quando o céu é um quadro misto de laranja e cinza
e meu peito se abre num precipício
tudo me parece infinito...
Quando defronte para o mar
o horizonte é um par de asas
e o meu mergulho é a fuga do conflito
tudo me parece infinito...
Quando o teu braço é o meu refúgio
e nele eu sou salva
da queda no abismo
tudo me parece infinito...
Quando eu engulo paisagens que quero guardar
tristeza que quer me afogar
alegria que não quero conter
o riso, a dor, o grito,
tudo, tudo, me parece infinito...
E nessa proporção em que me vejo
andar, contemplar, sentir,
descobri que o infinito
está dentro de mim...
(Tâmara Rossene)
quarta-feira, 24 de julho de 2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
Uma mulher aparentemente de cinquenta e poucos anos, sentada em um banquinho a minha frente, cabeça baixa, lixando pacientemente as minhas unhas dos pés, enquanto vai narrando a sua própria trajetória. Me fala orgulhosa da família para a qual trabalhou uma vida. Os meninos que criou, sabendo contar em cores e detalhes, cada etapa que eles vivenciaram. Vai descrevendo as dores e alegrias que viveu junto a eles, ora eufórica, ora saudosa. Quando foram estudar na capital, ela também os acompanhou. Acordava cedo para preparar o café e dormia tarde, preparando o próximo dia. Nesse momento, os olhos brilham, mas depois se apagam, como num flash, quando diz: agora estão casados e criaram família. Pergunto se voltou por isso. Ela me diz um não, com veemência: - Descobri um problema de saúde e não posso mais trabalhar com esforço. Voltei porque não podia continuar fazendo trabalho pesado. Mas até o momento, não tinha percebido que a forma que ela falava do trabalho parecia tão leve! Só então me dei conta das tarefas domésticas, no lava, passa, esfrega, cozinha, de todo dia. Volto a ouvir a sua voz, quando fala: - Por isso voltei a fazer unhas, por isso deixei os meninos. Foi o jeito que achei, de pagar as contas. Quantos anos teria, aquela mulher negra, com um riso (embora fácil), meio triste? Depois ela passa a me indagar sobre os meus filhos. Me diz que filho é "benção". Conta que ajudou a criar uma sobrinha, que também a chama de mãe. Que todo mundo deveria ter um filho prá fazer companhia na velhice. Eu lhe pergunto quantos filhos teve e ela me responde, com um pensamento distante, enquanto segura a minha mão direita no ar, observando o seu trabalho com a base, que acabara de aplicar: - eu não tive, mas deveria ter tido. Não sei porque não tive. Foi nesse segundo que compreendi que ela devotara tanto amor "aos meninos" e a família de quem ela falava mais do que dela própria, que não percebeu que não teve os seus próprios filhos, porque emprestara esse tempo a eles. Fico pensando com quais medidas essa relação foi construída. Haveria reciprocidade nesse tempo e dedicação desprendidos? e a relação trabalhista? será que pode se valer dos seus direitos para amparar o seu retorno, com problemas de saúde para casa? Acredito que não. E o tempo que lhe foi roubado dos filhos que não teve? As noites colocando aquelas crianças para dormir, que não foram usufruídas com as suas; as cantigas que ensinou a elas; os aviõezinhos com as colheres de comida, o zelo com os uniformes escolares, os machucados, as birras... Fiquei divagando sobre o tempo que as vezes roubamos ao outro, de forma covarde, usando as várias formas de amar alheias. E quando o bonde já passou e o outro não puder mais retomar os ciclos, quais punições nos serão dadas? seguiremos apenas, como aqueles meninos que cresceram? o que será ela na cabeça deles? será que têm consciência dessa devoção, ou apenas uma lembrança, sem qualquer culpa pelos pesos diferenciados que se estabeleceram? sem qualquer preocupação com o tempo doado, porque talvez eles acreditem, que permitiram que ela ficasse, até quando não servia mais...
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