Deveria ter uns 80 e poucos anos. Senta-se ao meu lado, aguardando a sua vez no Caixa. Fica me observando por longos minutos e depois pergunta, com um sorriso maldoso: Do que você mais tem medo? Eu passo a divagar: De não conseguir suprir a necessidade dos meus filhos, de morrer de repente, de… Ele me interrompe, aflito e diz: Eu tenho medo de gente sonsa! No princípio achei a frase tola. Mas depois, refletindo sobre acontecimentos recentes, após alguns minutos em silêncio, eu lhe devolvi: É esse meu maior medo! Eu tenho medo de gente sonsa!
E você, que me lê nesse exato momento... Do que tem medo?
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
Eu tão submersa no cotidiano aflito, que sequer olhei a janela convidativa ao meu lado, quando ele gritou: mamãe! vamos contemplar? um sopro sacolejante sobre mim. Logo eu, que sempre lhe apontei a paisagem e lhe indiquei uma brecha, por onde fugimos das lentes medíocres que insistem em nos ofertar. Por suas mãos pequeninas, um atalho de volta...
P.S. Foto no Morro do Pai Inácio, 2016.
P.S. Foto no Morro do Pai Inácio, 2016.
Num dia cai um dentinho, depois outro, depois ele cresce e você se pega fazendo poesia que narra o tempo passando...
Se despeça, moça!
Se despeça!
Deixe a janela aberta
para os acenos
dos segundos que não voltam.
Se despeça, moça!
fugindo a coisas vãs e aos lamentos
porque não se repetem os tormentos.
(não da mesma forma)
Se despeça sem abandonar a altivez
intensa, eloquente
e envolta em um tanto de insensatez.
Fugindo ao frívolo, ao morno e ao que é insonso.
Sendo antagonismos
ora paz, ora confronto.
Se despeça
sendo grata e plena
a um só tempo
porque tudo é movimento
e nesse trajeto do esvair
viver é se despedir.
(Tâmara Rossene)
Se despeça!
Deixe a janela aberta
para os acenos
dos segundos que não voltam.
Se despeça, moça!
fugindo a coisas vãs e aos lamentos
porque não se repetem os tormentos.
(não da mesma forma)
Se despeça sem abandonar a altivez
intensa, eloquente
e envolta em um tanto de insensatez.
Fugindo ao frívolo, ao morno e ao que é insonso.
Sendo antagonismos
ora paz, ora confronto.
Se despeça
sendo grata e plena
a um só tempo
porque tudo é movimento
e nesse trajeto do esvair
viver é se despedir.
(Tâmara Rossene)
domingo, 19 de agosto de 2018
A moça derrama vazios a minha
frente. Cuida do corpo e por ele se entrega a sacrifícios diários. Compra
cremes, fórmulas e horas eternas em academias. Trabalho, diz ela, é o corpo
cedendo ao cansaço e as rugas. Trabalho envelhece. E vai destilando os vazios
que a compõe. Muitos homens a tem, mas só os que podem suster seus vazios. Não
quer saber dos que tem fome. Não a preocupa os que estão sedentos. Mas deseja
ver se plena em corpo, músculos, cabelos, pele de seda. E eu a olhá-la, tão
absorta em pensamentos inquietos. Abarrotada dos questionamentos alheios.
Sedenta de justiça e indignação. Com fome de correr trecho e de percorrer
textos. Me retraio. A moça dos vazios parece ser feliz em sua própria
ausência...
Os olhos eram grandes e gulosos. Cabelo ralo e dedos compridos levados a boca. A boca, com gosto de mundo. Eu queria sair correndo com ela atada aos meus braços. Fugir do mundo. Às vezes, eu criava estratégias para isso. Talvez se eu pulasse um abismo rumo ao infinito: só nós duas. Depois me via correndo, correndo, até chegar num lugar só nosso. Bastava que pronunciassem a palavra "crescer" perto dela. Não, ela não cresceria! Eu a colocaria tão próxima a mim, que a menina de dedos logos e fortes, não desejaria partir. Ela sorria me olhando e eu lhe confidenciava num olhar, os meus planos secretos. Mas lá no fundo, uma tristeza me assombrava: até quando eu poderia mantê-la assim, hipnotizada sob o meu olhar? ao seu redor, tudo girava e ela já começava a virar a cabecinha para observar...
Mas vendo a fotografia e olhando aqui dentro, compreendo o quanto tem de verdadeiro nesse sorriso que se externa. Eu compreendi que quando o outro segue por caminhos tortuosos, não cabe a mim esse peso. Eu me libertei do peso do outro! Por isso eu continuo com as mesmas piadas sarcásticas em meio a labuta e com o senso de humor me alavancando os dias. Continuo reclamando do excesso de burocratização nas horas corridas, mas com o mesmo olhar atento prás dores que escuto todos os dias. E continuo me sentindo impotente em meio as mazelas alheias, em dores que não sinto na pele, mas que me golpeiam. Eu continuo achando graça de cada história que ouço na voz do meu filho pequeno e ficando encantada com cada narrativa ao telefone, na voz da moça, vinda lá do Planalto Central. Eu continuo tendo idéias absurdas de projetos que vou descartando por mera preguiça. E continuo construindo outros tantos planos. Eu continuo rabiscando poesias no meio das tardes, em meio a pilhas de papéis para cumprir. E continuo me sentindo culpada por isso. E continuo sumindo. E continuo aparecendo do nada e gargalhando. Então esse sorriso que você avalia como mera pose prá fotografia, sou eu caatinga ressurgindo. Lua cheia subindo a serra. Lágrima rolando no meio de uma música alegre de Alceu. Estrada seguindo entre sertão e litoral. Eu continuo...
terça-feira, 16 de agosto de 2016
A moça me olha, p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e. Depois me diz: Você deveria ir num designer de sobrancelhas. Eu automaticamente coloco a mão nas linhas tênues acima dos meus olhos e fico tentando compreender o que há de errado com elas. Ela com toda certeza leu os meus pensamentos e logo complementa: É para escurecer mais um pouco, dar formato, sabe? tem um maravilhoso que eu posso te indicar. Eu retruco dizendo que gosto delas do jeito que são. Que não tenho nada contra os traços desenhados e espessos. Acho até bonito em algumas pessoas, mas não tenho intenção de mudar. Digo que quando as quero mais escuras, lanço mão do lápis. Ela insiste, fala que eu não estou entendendo, que o lápis risca a pele e que ela está falando de preenchimento dos fios, que isso é resistência de quem não conhece. Eu me lembrei então que certa vez, num ônibus em Salvador, há alguns anos, uma Senhora perguntou quem fazia as minhas sobrancelhas. Quando eu disse que não fazia, ela deu de ombros, como se eu estivesse faltando com a verdade: naquela época, elas estavam na moda. Eu mantenho a minha posição. Diante da minha inflexibilidade, a minha amiga diz que eu tenho as sobrancelhas ralas e pouco expressivas, se quero continuar assim, que seja.
Ah, moça! Eu gosto das minhas sobrancelhas exatamente ralas e pouco expressivas. Gosto do contraste que elas fazem com meus olhos grandes e com o conjunto que compõe com o meu rosto fino. Mas lhe confesso, que não sou avessa a vaidades. A maquiagem me seduz facilmente, principalmente um batom vermelho fosco e olhos com contorno preto, muito rímel e esfumaçados. Também gosto de unhas vermelho brilhante, embora eu quase sempre ache desnecessário, abrir mão de tantas coisas que me fazem sentir mais leve, em duas, três horas de salão de beleza. Então, as unhas sempre esperam. E me incomodo muito com os fios brancos que saltitam como se fosse pirraça. Verdade que não suporto o cheiro da amônia, mas sempre faço arte nos cabelos. Mas ainda assim, por muitas vezes tenho que explicar a mãos habilidosas que querem amansar os meus cabelos numa progressiva, que o volume que eles tem, são como a minha personalidade revolta. E tem mais uma coisa, moça: Tem dias que eu uso salto, porque gosto do efeito de poder que eles causam. Mas na maioria deles, eu uso sandálias e sapatilhas e não me incomodo com o olhar sobre os meus pés, que as vezes observo. Noutros dias, eu gosto de saias longas e de fugir aos modelos convencionais. Mas acho que você vai gostar de saber,que eu adoro brincos grandes e de anéis. Então, minha moça linda... Eu lhe agradeço por tentar me encaixar. Mas eu já me acostumei aos desajustes. E depois, moça querida, eu não quero estar bem ao olhar alheio. Eu só quero me olhar no espelho e saber que estou na moda: a moda em que eu me reconheço, com os formatos que decidi me revestir...
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