terça-feira, 1 de dezembro de 2015



          Olhamos a cidade do alto de um prédio. Uma menina e uma mulher admirando a paisagem de concreto. Embaixo, inúmeros arranha-céus coalhando o espaço. Neles o dia transcorre, sem que se sintam observadas, as formiguinhas humanas. Um porteiro olha a sua frente, esperando a rotina começar. Um casal de bermudas e havaianas, talvez de férias, compartilham impressões. No térreo, o zelador grita, faz gracejos, cria performances para chamar a atenção. Parece ter sonhado outro espaço para si.
          Aponto cada uma dessas imagens e vou mostrando a minha pequena aprendiz: o restaurante e a arrumação das mesas, o posto de gasolina e a fila indiana de carros coloridos, as repartições públicas com o seu entra e sai. Em cada lugar, uma engrenagem se move. Digo para a menina de olhos arregalados que são organismos vivos, de diferentes tamanhos, que movem a cidade. E sob seu rosto tranquilo e inquisidor, repito: A cidade somos nós compondo essas máquinas. Ela me olha e pergunta o que fazemos então ali paradas, sem funcionar. E saímos imaginando, que peças seremos nós!

P.S. Encontrei essa cena escrita num bloco esquecido. Eu e Mariana, em nossas descobertas... A foto foi tirada em Belo Horizonte, em 2001, na mesma época em que vivenciamos esses fatos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015


Lembro que os maços de cigarros traziam dentro deles um pedaço de papel metalizado, meio fosco. Isso era na década de 70 e não havia tantas papelarias, nem tantas cores e texturas de papéis como hoje. As asas dos anjinhos das procissões eram feitas em filó branco e depois enfeitadas com estrelinhas ou bolinhas metalizadas. Na falta das papelarias, o papel dos cigarros servia. Eu tinha loucura para ser anjo e loucura por aquele papel metálico. E quando me disseram que eu me transformaria em um anjinho de roupa vermelha, na procissão de São Sebastião, saí catando todos os maços de cigarro que encontrava pelo caminho. Uma impressão agora, de que se fumava muito naquela época. A procissão terminou e eu fiquei com o brilho das bolinhas prateadas até hoje, no olhar. E agora, olhando para a coluna de uma parede da sala, onde colei espelhos em formato de estrelas, que lembram muito as estrelinhas saltitando nas asas dos anjos em fila indiana, pelas ruas da cidade, compreendi porque estão ali. Um sorriso infantil ao fitá-las. A parede, as estrelas, o prateado, o par de asas e eu... flutuando por entre eles, como se estivesse no céu.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Estamos todos consternados com a catástrofe em Mariana... Mas além dos posts compartilhados e da solidariedade prestada, fico pensando em quanto disso tudo modificou a nossa consciência em relação as questões ambientais. Aqui em nossa região, se eu não estiver enganada, Boquira, Brotas de Macaúbas e Oliveira dos Brejinhos tiveram seu potencial hídrico sacrificado pela exploração do minério. Todos os dias, silenciosamente, o esgoto escorre para o leito do Velho Chico, abocanhando as águas das cidades ribeirinhas. As nascentes são dizimadas debaixo dos nossos olhos, enquanto nos chocamos com as imagens da TV. E quanto disso trouxemos a tona, nas notícias que nossos dedos ágeis tem propagado? Debaixo da lama de todo esse sistema, quanto de nós tem renunciado ao consumo desenfreado? Quanto temos abdicado para fugir a lógica (ilógica) de sustentar a aparência? Quanto temos revisto na educação dos nossos filhos, para impedir que as novas gerações propaguem esse modelo estúpido que escolhemos? Quanto de nossas aspirações medíocres de morar em torres de concreto, dispostas sobre ecossistemas inteiros, morreram? Quanto de mim, efetivamente, se posiciona como responsável, quando aponto o meu dedo em riste, para os órgãos governamentais? Quanto de você está nisso?

terça-feira, 3 de novembro de 2015



E eu aqui a maldizer
o impiedoso Senhor do Tempo
ladrão dos meus melhores anos
o causador dos meus tormentos.
E indago porquês
sobre a ampulheta que se esvai
lâmina sobre os dias meus.
Mas eis que um pensamento
me trai:
esse Senhor das horas passadas
SOU EU!
    

(Tâmara Rossene)

domingo, 25 de outubro de 2015



Calaram Cida
no mato ao lado da Avenida
onde ela brincava de esconde-esconde.
Calaram Simone!
ali, próximo ao ponto de ônibus.
E ninguém ouviu
o grito que não saiu
da garganta de Maristela.
Calaram meninas pretas, brancas, pardas, amarelas...
Mas não sei porque
vozes e dedos em riste
ainda se levantam contra elas.
                           (Tâmara Rossene)


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Nós já tivemos essa relação direta de sobrevivência com o rio... Quando ele era o principal meio de locomoção e o promotor das trocas comerciais. Mas depois vieram a rodovia e as novas formas de produção. E nos julgamos independentes do ciclo que se entrelaçava com o Velho Chico. Nossos sentidos e nossos caminhos estão noutros lugares. E tolamente acreditamos que o São Francisco é apenas a paisagem. Talvez por isso, só haja o rio que é pano de fundo das fotografias, o que que está sempre por detrás de nós, essa contemplação, sem qualquer ação...