92 anos de tio Elias, na verdade tio do meu avô. E eu ali ouvindo as filhas dele falando do pai zeloso que velava as noites em que os filhos ardiam em febre, às vezes debulhando o milho, para não adormecer. Debaixo das mangubeiras da Canabrava, mergulhada na noite, eu fui penetrando em minhas memórias. Tio Elias, homem pacífico e de poucas palavras, me lembra ao engenho de cana se movendo com os animais; a sua Quezinha, que me recebia sempre com beiju de massa, café e um sorriso. Paulo e Lena me oferecendo um copo de garapa de cana e jatobá. Os olhos e as longas tranças negras de Lena, se movendo em nossas brincadeiras. Os poucos metros que eu e minha tia Cristina percorríamos da casa de tia Helena até encontrar a porta da frente da casa de tio Elias. Zé, Eli, Vera e Silvia com sua voz limpa, de braços abertos prá mim. As filhas lembrando a convivência com o pai e eu revendo meus avós Anália e Minervino entrando na casa de Dona Edite, na sala de Dona Isaura, no engenho de Silas Braga, com os pés mergulhados no regato. Eu, me sentindo tão distante daquela realidade e de repente percebo que tudo aquilo são pedaços de mim. O cheiro do sabão de manguba. As mulheres na lida da mandioca. O mel de rapadura escorrendo em meus dedos. Os meninos na porta da igrejinha, esperando a hora do catecismo, aos domingos. E quando estamos indo embora, meu avô entra no carro e começa a falar das suas próprias lembranças. De ter sido o primogênito de Samuel e das suas tias disputando as suas mãozinhas de garoto. Da estrada onde passavam os boiadeiros, com boiadas estrondosas, sob seu olhar de menino. Nossas memórias ativadas. De repente ouço uma voz ao longe e não identifico como parte daquele cenário. Meu filho em meu colo, me diz: - Gostei da Canabrava, mamãe! Fico pensando se parte disso tudo, chegará até ele. Ou se adormecerá junto comigo, no labirinto da memória...
domingo, 20 de setembro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
domingo, 30 de agosto de 2015
Depois da aula da última sexta, fiquei divagando sobre as marcas da violência que carregamos. Não as marcas físicas, mas as que se inscrevem em nosso ser e respondem por determinados comportamentos que assumimos, muitas vezes de forma inconsciente. Uma palavra dita por alguém próximo, os discursos ditados pelas instituições das quais fazemos parte e a obrigatoriedade de reproduzi-los, os relacionamentos abusivos, os moldes da família, da escola, os julgamento indevidos, os padrões pré definidos. Eu consigo descrever algumas ocorridas em tempos remotos, de forma muito clara. E as vezes identifico reações desnecessárias no presente, a menos que eu faça conexões com marcas de outras épocas. Umas que trouxeram consequências danosas, outras mais superficiais. Outras ainda que já são cicatrizes, mas que em determinados momentos provocam dor... Identificar as marcas causadas no outro é um exercício muito mais complexo e talvez mais doloroso. Porque aí temos que nos admitir falhos, tolos, entregues a nossa pequenez e as vezes cruéis. Mas o cotidiano, a lei da sobrevivência, o bom senso (será?), muito a nossa volta se esforça para negar essas impressões. Talvez seja necessário tomar distância de si para enxergá-las. Mas... quanto de nós quer promover esse encontro?
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sábado, 1 de agosto de 2015
Eu ouvia que de agosto
colhia-se apenas desgosto
e o grito dos loucos.
Mas esse vento que sopra
pode ser a boa nova...
Agosto
traga feliz o meu rosto
na porta da nossa casa na Avenida.
Junte de novo
o que agora é partida.
Leve embora esse gosto
de despedida.
E nos faça flutuar
por entre as folhas que correm nas ruas.
Ó, agosto!
sopre prá longe
a realidade crua...
P.S. A foto, ainda que de baixa qualidade, é nossa (minha mãe, meu pai e Celo), na frente da casa na J.K., vendo o ciclismo passar, num agosto...
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