domingo, 7 de abril de 2013


E essa coisa de fugir ao sistema é tarefa dificílima, senão impossível... Nessa guerra que é sobreviver, acabamos de um ou outro modo, sucumbindo ao comando. Ainda que sejamos contra uma infinidade de convenções sociais, terminamos por fugir dos nossos padrões pessoais, muitas vezes sem nos darmos conta. Na forma de vestir, de se portar nos ambientes por onde transitamos, no vocabulário utilizado, na necessidade de consumir ... O distanciamento ou o desvencilhamento total chega a ser uma visão romântica! Nessa semana um amigo me disse que apenas na arte conseguimos ser totalmente verdadeiros. Logo, penso que apenas a arte nos salvará! Então, que possamos reencontrar esse caminho...

P.S. Na foto, pintura de Elvis Castellini,prá alegrar os nossos olhos...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma poesia de meu pai...

 

DESOLAÇÃO
No sorriso pálido
De lábios descarnados
A historia de um povo abandonado
Sem pão
Sem teto
Sem chão...
Que vive apenas
Da crença forte de ser Humano
Que se agarra desesperadamente
A um desejo de vencer
Sabendo embora
Que talvez nunca chegue
A ser manhã
Mais do que hoje é...
Assim é o resignado
Caboclo do meu “Velho Chico”
Que faz do sofrimento
Profissão de fé...
                                   (Orlando Ribeiro de Andrade)

domingo, 24 de março de 2013

Prá reavivar a memória....


Hoje Vovô Minervino me apareceu por aqui...uma pena não ter registrado em fotografia. De repente ele passou a me narrar a história abaixo. Parava e recomeçava, como se estivesse puxando a memória...

Lá pelos idos de 1933, Padre Cícero andou por estas bandas...Aquela época o meu avô contava com apenas 04 anos. A igreja que imaginamos como tendo sido a primeira, na verdade foi a segunda, ali no início da rua JJ Seabra, onde hoje é o comércio de Chica de Edimar, havia uma pequena capela, chamada capela do Bom Jardim e foi ali que a missa do Padre Cícero foi celebrada. Parte do povo estava no interior da igreja e a outra parte, do lado de fora, imagino que pelo tamanho. E na parte externa, um converseiro sem parar, dos homens, falando sobre animais, sobre o comércio, sobre a vida que viviam...Padre Cícero pede silêncio e prossegue em sua missão. O burburinho recomeça. Disputa entre o sermão do Padre e a conversa sem fim dos fiéis. Padre Cícero, que era tido como um homem Santo, muda o tom da pregação e diz que esse lugar que se chamava Bom Jardim, haveria um tempo, em que se transformaria num Mal Jardim. E meu avô vai emendando um fato noutro e me relata que nessa mesma época Padre Cícero celebrou uma missa nas Carnaíbas, na casa do pai de Jadinho e que foi a pé, junto com várias pessoas da Vila, que caminharam por cerca de duas horas. Junto com eles, estava o pai do meu avô, Samuel. E que no caminho de volta, alguns discutiam se o tal homem, era ou não era mesmo um Santo. E que uma chuva começou a cair e pediram para o Padre esperar, mas que este relutou, dizendo ser a chuva um sinal sagrado. A chuva parece que caía atrás deles e na frente. Todos pisoteando um verdadeiro lamaçal, a enxurrada da chuva que ia caíndo a frente deles, mas sem molhá-los. Era como se a chuva só não caísse sobre eles. Chegaram todos secos. Mas só depois se deram conta do que havia acontecido. Por isso essa história do Bom Jardim ficou martelando a cabeça desses homens por muitos anos, porque notaram que havia algo de diferente naquele homem, cuja fama corria solta e temiam a profecia do Santo...

P.S. Acima, uma foto da Igreja Nossa Senhora da Guia,segundo vovô Minervino, construída em 1943, tendo como grande colaborador o Coronel Zezé, avô de Dona Nieta, de Seu Vercinho. Demorou uns cinco anos prá ficar pronta. Uma pena terem derrubado a capelinha, mas fica aí o registro prá afiar a memória...

domingo, 17 de março de 2013


Antigamente
dias e dias
as imagens se repetiam
a cabeça se entristecia.
Agora...
 um tiro pela manhã
 um terremoto durante o jantar
um sequestro seguido de morte antes de me deitar.
 E acordo 
como se nada tivesse acontecido
como se tudo tivesse sido
comum...
Eu sigo meu curso
como todo mundo
preparada para novas cenas. 
Não sei o que é mais crível...
se esse cotidiano trágico banalizo 
ou se estou ficando insensível.
(Tâmara Rossene)

P.S. Na foto, uma benzedeira nossa, clicada pro mapeamento de cultura, prá afastar os fantasmas do mundo moderno.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Enquanto lá fora
o vento toca
a flor se abre
a chuva faz festa
sob o sol
a hora cá dentro
é morta.
O ar é gélido
os gestos maquinais
e apenas a superfície
deixa se mostrar.
Lá fora (ao que parece)
a terra gira
enquanto eu observo
do vidro
temendo que um dia
me enterrem
sob papéis.
   
 (Tâmara Rossene)

P.S. Publicado no Libro da Tribo - 2013.

sexta-feira, 1 de março de 2013


Estava assistindo a um documentário sobre o Haiti, no ultimo final de semana. E ao invés da reação que sempre me acomete, de tristeza e piedade, me ocorreu que estamos permitindo um campo de concentração sob nossos olhos. Comida, remédios e caridade apenas, não modificarão aquela realidade. É preciso investir em infra estrutura. É preciso construir uma sociedade real, com equipamentos urbanos, instituições, moradias, ferramentas para assegurar a diginidade. Pensei na definição de purgatório e inferno. Lembrei de lugares próximos a nós, onde a miséria também ronda... Pensei na fantasia de uma rainha de bateria de escola de samba, anunciando que a mesma custaria em torno de cento e cinquenta mil reais. Não resisti a fazer comparativos. Seis casas populares construídas, uma quadra de esportes, três laboratórios de informática, duas salas de leitura, um micro-ônibus para transporte escolar. Fiquei me perguntando se dez, vinte, fantasias de igual valor, custeariam quais benefícios para a coletividade. Fiquei me perguntando: Uma sapucaí lotada ou uma comunidade vivendo em condições mais humanas? A alegria fugaz a cada ano, para poucos, ou a felicidade coletiva de viver com mais dignidade? Perdi o sono pensando que Hittler instalava câmaras de gás e abreviava a morte. Mas que essa natureza de conceder esmolas, me trás a sensação de que prolonga os dias, mas que eles permanecem contados...

P.S. Na foto, a comunidade da Ilha Grande reunida, tecendo em palha de milho, de forma tão salutar, em contraponto as comunidades a que se referem o texto.




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013



Peguei a estrada da Canabrava um dia desses... Na casa de tio Elias, fiquei me lembrando do meu deslumbramento, aos nove, dez anos, passando férias naquele lugar. Da água que corria no fundo das casas, da casa de tia Helena, do beiju de massa sendo confeccionado na casa de farinha, por mulheres da comunidade, num clima de festividade, dos engenhos de cana de açucar, do batido de rapadura, do engenho de Silas Braga e de suas histórias. O aspecto de uma vilazinha recuada, ainda permanece, com a altivez das mangubeiras, que me metiam medo, quando a energia elétrica ainda não era realidade. Parte das casas mudou as fachadas, outras foram construídas. A igrejinha me trouxe a lembrança das promessas de vovó Anália, dos relatos de como conhecera meu avô, da história da família que vem percorrendo as gerações, nos nomes de Samuel, Maria, dos Bragas...Fiquei entristecida em perceber que os engenhos praticamente acabaram e que o regato secou. Passei por tantos lugares, em outros municípios, que construíram alternativas sustentáveis de forma tão simplória! Do engajamento comunitário, em torno do fortalecimento do lugar, que trouxe preservação aos costumes e meios de sobrevivência. Acho que esse sonho passou por minha cabeça nesse dia, olhando o cruzeiro colocado no alto da serra da Canabrava, uma promessa do passado, para que a chuva amenizasse a seca. Uma história que ouvi anos a fio, contada por vovô Minervino. E eu ali, olhando prá cruz e desejando preservar aquele lugarzinho, aquela paisagem, aquele pedaço do meu ser...
Na foto, eu, tio Elias e João Marcelo, prá registrar diferentes gerações, na Canabrava de hoje...