quarta-feira, 6 de junho de 2012



Sempre tinha problemas quando ia cortar os cabelos. Uma culpa imensa! Um apego a imagem anterior que me causava pesadelos... Com o tempo os cabelos viraram possibilidades de mudança... Já fui morena, loira, ruiva. Já tive cabelos longos, médios, curtos e curtíssimos. Acredito que essa nova lógica veio da capacidade de me adaptar ao novo e de uma grande aceitação que passei a ter comigo mesma e com a imagem que sempre acompanha o meu estado de espírito:
                       Um CAMALEOAR intenso!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Do lado de cá das bandas do Velho Chico, tanto quanto dos outros lados e em outras bandas, a indústria do carro pipa continua... A seca, sempre sendo anunciada como uma catástrofe, que cai sobre nós, inesperadamente... Quando na verdade, é característica do nosso espaço geográfico. Fico me perguntando, porque que tantas tecnologias testadas prá conviver melhor com o clima que nós, do lado de cá, conhecemos tão bem, sempre ocupam o quarto dos fundos, enquanto os mesmos paliativos de sempre permanecem... Mas o nosso perfil também mudou muito. Nós que somos sertanejos da zona urbana, temos água farta nos canos, e embora o sol ainda nos escalde pelas ruas, estamos consumindo tudo aquilo que torna mais ameno nosso modo de passar por esses tempos de calor fustigante. Tudo o que falta por aqui, quando a lavoura não rende seus frutos, nos chega em caminhões, transportadoras, nos canais de distribuição que agora estão a nosso dispor. Se vivêssemos nos tempos de outrora, os lombos dos animais não seriam tão eficientes, nem teríamos tantas parafernálias a nosso dispor, pra refrescar os calores que nos assombrassem... Parece que no passado, éramos mais solidários. Ou, como os efeitos acabassem chegando até as cidades, a pele sentida se manifestava...
Como podem ver, embora aparecendo em espaços de tempo cada vez maiores, continuo em meus devaneios... Não sei se me acovardando por detrás dos escritos, ou se eles não são exatamente o tiquinho de coragem que ainda me resta...

domingo, 11 de março de 2012

Acho que gosto dessa coisa de fazer projeto, porque é sempre um novo começo. Pensar, descartar idéias, colecioná-las, orçar, imaginar se o formato cabe no lugar, no tempo e no espaço... Gosto principalmente de viajar no nome. Não consigo avançar enquanto não nomeio a idéia. Na maioria deles, tenho que me apaixonar pela concepção. O Projeto Redemoinho foi assim... Pensar na Cultura Popular girando como os ventos que outrora destelhavam as casas e jogavam poeira em nossos rostos, os redemoinhos aqui das bandas do Velho Chico... Resgatar e recriar...Ontem o Projeto esteve no Muquém do São Francisco e fiquei um tempo apreciando os bastidores fervilhando. Cerca de vinte pessoas (a maioria adolescentes) se mexendo prá montar o espetáculo. Uma grande vitória poder remunerar quem gosta de fazer arte! A participação de grupos populares (a maioria de idosos), é outra grande conquista! E o povo fazendo número na platéia, sorrindo, participando...Superando aquilo que foi formatado no papel. Um presente prá essa mera "artesã" de projetos que vos escreve...
Abaixo, fotos por Mariana Bomfim, dos bastidores e do espetáculo. Atentem para a Mulher de sete metros...




Acessem www.blogredemoinho.blogspot.com

sexta-feira, 9 de março de 2012

Me lembrei que certa vez estive ali pelas redondezas do Cantinho, visitando a casa de um dos moradores da localidade. Observei que a casa de aparência simples, não tinha banheiro e perguntei ao seu dono, onde os moradores da residência faziam as suas necessidades fisiológicas. Ele apontou um matinho próximo, em resposta a minha pergunta. Ao entrar em seus aposentos, observei uma televisão de grandes proporções e ao olhar para o quintal, uma antena parabólica que contrastava com as quase ruínas do casebre. Ainda intigrada com a ausência do banheiro, virei-me para o Senhor e utilizei todos os meus argumentos e conhecimentos básicos sobre higiene, para tentar convencê-lo da prioridade que ele deveria dar ao reservado para as necessidades dele e dos seus familiares. Ele continuou irredutível e eu indaguei: - Por que o Senhor não vende a antena e a TV e não constrói o banheiro? Ele se virou e me veio prontamente com a resposta: - E eu vou luxar de que?
Me mantive em silêncio e aquela pergunta ficou por muito tempo martelando o meu juízo. Fiquei pensando se poderia eu julgá-lo. Como ele, muitos mais esclarecidos e com acessibilidade a outros meios, preferem outros luxos, ainda que envoltos em camadas de purpurinha que se soltarão pelo caminho. Muitos bem mais abastados preferem por exemplo, investir no que é fútil, em detrimento da educação. O tal Senhor, talvez por pura ignorância, ou talvez por acreditar necessário mesmo, prefere continuar usando a moita, a abrir mão da talvez única parcela de lazer que lhe é permitido ter. O único luxo... Muitos são os que podem se dar ao luxo desmesuradamente e ainda assim, optam pelo que está detrás da moita daquele Senhor... E você que me lê nesse momento,
do que anda luxando?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ledo engano, cinco escolas de samba do Rio de Janeiro levaram para a Avenida, temas relacionados a cultura nordestina. E eu de cá, longe da muvuca carnavalesca, fiquei a refletir com meus botões...No curto espaço de tempo em que estive em Belo Horizonte provei um tanto do mal que sofrem nordestinos entre os povos lá do sudeste. Até uma manobra errada feita por um taxista no trânsito, foi "carinhosamente" apelidada de "baianada". Deparei-me com uma prática, por vezes acirrada, de apontar o sul e o sudeste como berço de raças superiores, em detrimento dos inferiorizados nordestinos, que estiveram e estão nas engrenagens que movem as cidades desses deuses. Moiçolas e rapazes viajam léguas e pagam caro prá se acotovelar entre as cordas dos blocos, na grande folia momesca, numa festa em que baiano trabalha duro prá sulista e turista se divertir! Uma Sapucaí inteira aos nossos pés, rendida aos ditames da cultura popular nordestina. No entanto, apenas alegorias, meus caros, cá fora, a realidade é bem divergente dessa que se mostra, nessa alegria fugaz...

Carnaval
Sustentando a corda
prá nobreza passar
se arrastam os cordeiros!
Essa é a grande festa popular da Bahia!
À frente a plebe
tomando porrada
prá nata se divertir ilesa.
Brindamos a orgia
ao carnaval
a alegria eventual...
Enquanto do outro lado
da rua
a vida
nua e crua
se desenrola
sem confetes
no pequeno catador de latas.

(Tâmara Rossene)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nunca senti tanto calor em pleno dezembro... Se bem que de um tempo para cá, dezembro vem se modificando... o Natal, tão representativo prá mim, vem se transformando numa festa por vezes tão hipócrita! Essa obrigação de presentear me parece tão desigual! De mesa farta em contraponto a mesa em falta... Nessa época eu gostava mesmo era dos Ternos de Reis chegando na porta das casas, em festa. As portas se abriam e junto a festa dos reiseiros, o dono da casa providenciava o que tinha a mão para dar de comer e de beber ao grupo. Depois eles foram ficando a cada dia mais marginalizados. Reizeiro para alguns é sinônimo de gente embriagada. A falta de incentivo aos grupos junto com essa visão deturpada, porque por detrás dos Santos Reis tem um cunho religioso, foi empurrando-os para as periferias, cada vez mais. As Lapinhas também foram virando poeira do tempo. A última que vi foi no ano passado, na casa de Dona Nazinha, ali no cais. Ontem passei por lá e vi a casa toda fechada, sem qualquer sinal dum tempo que gosto de recordar...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estávamos no finalzinho da década de oitenta e de volta a Ibotirama, ladeados pelos sonhos de meus pais, de uma nova vida, pós formação superior, nos braços da terra natal... Naquela época a adolescência batia a minha porta. Dentre os novos amigos desse novo mundo, "o goiano", apesar de um pouco mais velho, virou presença constante em nossa casa. De olhos verdes, cabelos caindo sobre a testa e traços afiladíssimos, além de um verdadeiro galã, era de uma gentileza extrema. Tão sensível, que por vezes tornava-se incompreendido. Tocava um violão meio desafinado, cantava meio desafinado, mas era dono de composições tão puras, que esse desafinar tinha um certo encantamento. Me trazia uma serenidade sem tamanho. Dono de uma caligrafia linda, me deixava absolutamente surpresa e lisonjeada, quando elogiava a minha letra. Depois de um certo tempo, foi cursar Técnico Agrícola em Catu. Ainda assim, me trazia notícias nas férias. Lembro-me de uma moça chamada "Linda Rosa" por quem se apaixonara e que, por conta dela, me fazia ficar imóvel por horas, ouvindo suas queixas sobre a interferência da família no namoro. Depois a vida nos lançou em direções opostas, mas não o relegou ao esquecimento. Volta e meia me perguntava por onde andaria José Carlos Vilaverde. Ontem soube que faleceu há pouco tempo e que estava logo ali no Morpará. Soube também que continuou compondo e cantando e que a vida lhe trouxe muitas amarguras. Mas que deixou composições maravilhosas para os que estavam próximos. Não constituiu família e morreu sozinho, sendo encontrado apenas três dias depois. Tenho quase certeza, que o peso desse mundo deve ter ficado insuportável para os seus ombros tão leves...
Abaixo, um poeminha meu, porque foi inquieto como eu, apenas sabia disfarçar melhor...

Dentro de mim
um poço reina
profundo...
As agruras que lanço
sem dó
as inquietudes
meu olhar sobre o mundo.
Tem dias que lanço a corda
e sem medo desço.
Afogo minhas angústias
fujo dos meus desejos.
Tem dias que cerro a tampa
e na superfície renasço.
Poço de mim
fuga com as quais
sobrevivo nos percalços.

(Tâmara Rossene)